sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Natal:

Desde que o Samba é Samba(Caetano Veloso)

Int.: A7+ E5+/7
A7+ E7 A7+ A7/9
A tristeza é senhora
D7+ G7/9 C#7/13 F#7/9
Desde que o samba é samba é assim
Bm7 E7 F#m7
A lágrima clara sobre a pele escura
B7/9 E7
À noite a chuva que cai lá fora
A7+ E7 A7+ A7/9
Solidão apavora
D7+ G7/9 C#7/13 F#7/9
Tudo demorando em ser tão ruim
Bm7 E7/13 F#m7 B7/9
Mas alguma coisa acontece no quando agora em mim
Bm7 E7 A7+ E7
Cantando eu mando a tristeza embora
Bm7 C#7
O samba ainda vai nascer
F#m7 G#7
O samba ainda não chegou
C#m7 F#7/9
O samba não vai morrer
F#m7 B7/9
Veja, o dia ainda não raiou
Bm7 C#7
O samba é pai do prazer
F#m7 G#7/9-
O samba é filho da dor
C#m7 F#7 B7/13 B5+/6 Bm7
O grande poder transformador

sábado, 19 de dezembro de 2009

18, 12-12-09

Sexta 18

E em frente ao cemitério, enquanto o asfalto fica ocupado por carros parados, olho. O vermelho aceso do semáforo sinaliza próspero sincronismo dos pés no bréque. Bem no meio, envolvidos eles estão.
Ela, com seus cabelos brancos, dorme de boca aberta. Ele, ao lado, espera o verde sinal da continuidade do prosseguir.
E no meio desta tarde quente de sexta, onde tenho a seguir semana de ponteiros desgovernados de ordens alheias, olho.
A espera do ônibus laranja escrito "Card Alm" paraliso o corpo suado e quente. Sensação não se descreve o tempo todo. Sensação sem nome de sentimento é Aquilo, Isso, ...
De repente o Acaso pode tomar conta de corpo e criar (in)forma. E não há alarde de pensamento/escrita brusca.
Emsimesmado é quando? Se me invade o outro quando estou só. Será que emsimesmado se confunde com emsioutrado sempre? Esses outros que ultrapassa corpo delimitado por pele e pêlo. O outro é calor de sol, é boca aberta que desvenda nuances de língua, de céu(,) de boca.
A velha dormia no carro (segura) em seus sonhos de sonos paulistanos.

Sábado 12

Clarice me encontrou nesse sossegado sábado de dezembro. Cada vez me convenço que o pensamento pode ser literário e vice-versa. Vida obra de arte?
"Porque hoje é sábado"(V.M)... dia de curtir a casa, de curtir vida-eu e tudo que mais couber conectar. Dia de larica existencial com mesa farta!

"Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado – que fora da janela se balançava em acácias e sombras – eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-la na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço."
"A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos – tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse."
"(...)Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de nós. Tudo limpo do retorcido desejo humano. 'Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe" ( A repartição dos pães - C.L.)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Registro mundo(s)

De repente vem uma força que clareia e confortabiliza o todo confuso, transformando-o e mim em paz. Um istante em que os embaraçados fios de diversas histórias, como se fossem nuvens, ganham desenhos já acabados - por mais que depois voltem a se formar em algo quê.
É a hora que o cachorro sarnento se cansa de coçar e encosta-se no canto da parede. Com a cara entre as patas parece suspirar, se esquecendo do incomodo de si.
Pelo chão, às vezes fica tudo espalhado: roupas recém tiradas de um dia suado de trabalho, textos antigos que li pela metade, trocos... e espaços vazios por onde posso pisar e me locomover.
Às vezes fica tudo arrumado: Dobradas, compactuo e empilho todo conteúdo que pairava como pensamento em mim. Encaixo diversas cores e origens, sólidas como massas de modelar - farinha com água e corante a base de suco e/ou compradas na loja de brinquedo da esquina. Modelo os movimentos deste corpo, as maneiras como irá deslocar ar e emitir som - ação e discurso.
Faço natação. Frequento terapia. Converso com loucos. Arrisco um novo romance. Acordo numa manhã chuvosa e tomo café-da-manhã ao som de rádio FM.
A prateleira encostada da nova sala flerta distraidamente com a parede que está a sua frente. Em si tem livros e em seu último andar mora (minha) samambaia com seus cabelos bagunçados. Há também um telefone sem fio e um toca-musica. Vias de se perder o olhar e ganhar caminhos invisíveis. Assim, sem TV, aprendo a construir relações de mundos... que me surpreendem.
Enquanto dormia, nesta madrugada, quatro estouros chacoalharmam meu corpo jogado na cama. As explosões vindas da rua fizeram clarão lá de fora. Pedi ajuda e ligamos para os bombeiros. Eu tremia e meu coração disparava. Os bombeiros disseram que isto era com "o" Eletro Paulo. Seja quem for esse moço, fiquei tranquilizado, e voltei a dormir. Aqui não há incêndios no momento. Só uma chuva que teima em inundar a Marginal Tietê. Estou longe.... e é dia.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A cidade e os olhos - Italo Calvino

São Paulo + outras São Paulo + Casa antiga + Casa Nova + coisas novas + coisas antigas = confusão e frenesi. Encontei-me com Calvino no banheiro. Aqui a chuva cria lagos no meio da rua e filas infindáveis de carros. Estaciona-se "amuntuado" dentro de ônibus que cheira gente molhada ou se corre deixando as gotas espessas espatifarem-se na minha roupa, na minha mochila com livros e agenda abarrotada, na minha pele. Um pouco de água + Liga O Foda-se + Dá gargalhada e enlouquece = Isso... e é isso!

"Ao chegar a Fílide, tem-se o prazer de observar quantas pontes diferentes entre si atravessam os canais: pontes arqueadas, cobertas, sobre pilares, sobre barcos, suspensas, com os parapeitos perfurados; quantas variedades de janelas apresentam-se diante das ruas: bífores, mouriscas, lanceoladas, ogivais, com meias-luas e florões sobrepostos; quantas espécies de pavimento cobrem o chão: de pedregulhos, de lajotas, de saibro, de pastilhas brancas e azuis. Em todos os pontos, a cidade oferece surpresas para os olhos: um cesto de alcaparras que surge na muralha da fortaleza, as estátuas de três rainhas numa mísula, uma cúpula em forma de cebola com três pequenas cebolas introduzidas em sua extremidade. “Feliz é aquele que todos os dias tem Fílide ao alcance dos olhos e nunca acaba de ver as coisas que ela contém”, exclama-se, triste por ter de deixar a cidade depois de tê-la olhado apenas de relance.
Sucede, no entanto, de permanecer em Fílide e passar ali o resto dos dias. A cidade logo se desbota, apagam-se os florões, as estátuas sobre as mísulas, as cúpulas. Como todos os habitantes de Fílide, anda-se por linhas em ziguezague de uma rua para a outra, distingue-se entre zonas de sol e zonas de sombra, uma porta aqui, uma escada ali, um banco para apoiar o cesto, uma valeta onde tropeça quem não toma cuidado. Todo o resto da cidade é invisível. Fílide é um espaço em que os percursos são traçados entre pontos suspensos no vazio, o caminho mais curto para alcançar a tenda daquele comerciante evitando o guichê daquele credor. Os passos seguem não o que se encontra fora do alcance dos olhos mas dentro, sepultado e cancelado: se entre dois pórticos um continua a parecer mais alegre é porque trinta anos atrás ali passava uma moça de largas mangas bordadas, ou então é apenas porque a uma certa hora do dia recebe uma luz como a daquele pórtico de cuja localização não se recorda mais.
Milhões de olhos erguem-se diante de janelas pontes alcaparras e é como se examinassem uma página em branco. Muitas são as cidades como Fílide que evitam os olhares, exceto quando pegas de surpresa."

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Ela

Ela delicadamente foi segurada pelos braços com pêlos descoloridos da mãe e voou pela janela furada.O seu choro abafava a vista da calçada que chegava lentamente? Não sei.
Ela dorme na calçada movimentada de passos acelerados de saltos, de dedos, de pés encouraçados. Suspira e sonha com a corda que pulou outrora? Não sei.
A platéia grita: "puta". Durante isso, ela, escoltada por seguranças, desfila na Entidade Casa de Sábios Saberes com sua mini-saia comprada para mostrar sua coxa bronzeada de praia, sal e sol. Se envergonha? Não sei.
As dores são cada vez maior. Ela quer que esse mundo rasgue sua vagina com todas dores que lhe caibam. E um fio de navalha lentamente risca sua enorme barriga cheia de gente.
Ela vê a imensa luz. Depois se alimenta de leite quente vindo de teta.

Passageiro

Há tempos não passo por aqui. A areia do deserto estava agitada demais devido à forte ventania. O sol ainda continua extremamente quente, meu miolo ainda espuma gosma viscosa de susto forte. Estou quase de volta. Ainda falta terminar de tomar a água gelada do copo que esvazia-se. Aí sim a sede passará e poderei sentar a frente deste portal estranho, onde o encontro com as pontas do meu dedo causa bolhas. Por enquanto este é apenas uma falsa passagem, um colocar a cabeça para dentro sem deixar a mostra minha jugular. Protejo o pescoço com colar de pérolas feito por hippies que vivem no fundo do mar... Ensaio...

sábado, 3 de outubro de 2009

Um presente de aniversário que ganhei de Grá... Palavras de Caio F

Na terra do coração passei o dia pensando - coração meu, meu coração. Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa. Ficou só com-cor, ação - repetido, invertido - ação, cor - sem sentido - couro, ação e não. Quis vê-lo, escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi:

Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.

Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.

Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável. Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.

Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.

Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.

Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.

Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pôs. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.

Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.

Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco. Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar, será feliz para sempre.

Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: "Im too pure for you or anyone". Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.

Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.

Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.

Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.

Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo.

Meu coração é uma planta carnívora morta de fome. Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos - ai de mim! ai, ai de mim!

Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também. Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso.

Acesa, aceso - vasto, vivo: meu coração é teu.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O céu

Aqui, hoje, vejo aviões ao invés de estrelas. Mas não são pontos luminosos de aviões. São aviões.

sábado, 12 de setembro de 2009

Cidade Absurdo

Vejo uma árvore carregada de amoras em uma esquina da Consolação. Algumas pisadas no chão deixam borrões na calçada. Doces? Nos galhos, algumas ainda meio verdes, meio vinho, meio sede, me olham enquanto sentado no ônibus...
Já tentou contar as janelas que se viram para rua? Quem está por trás delas a não olhar? Quem é o moço dentro da cozinha apertada que espera a última gota de café amargo pingar do coador ao copo que já foi com milho? Pia de mármore rachado, poças.
Tiro da mochila deitada no chão fotos que acabaram de se revelar. E é tudo tão novo, tão louco. Como é que vim parar aqui?
Já na Paulista, chego até o décimo quinto andar. Comedoria? Queria mesmo era acender um cigarro enquanto observo mar de prédios e neblina tóxica. Por que não se pode fumar aqui em cima? "Por causa da lei, por causa da lei" - coloca a cabeça para fora da nuvem o senhor engravatado de barbas brancas.
Aos poucos escurece. O tal de Oury fala, mas dos fones que estão em meus ouvidos ouço apenas a voz macia da senhorita Tradutora. Ela falou que ele falou que o Freud falou isso: "Aí onde estou, devo tornar-me".

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

As unhas dos paulistanos andam roídas até a carne. A minha do dedão do pé ganha moldura de meia preta de algodão...Leptospirose? Gripe suína?
Deixo os pés quase descalsos em contato com a água que corre ou tento escondê-los nos meus sapatos de couro para assim fingir que não as toco?

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Esse blog tem sido muito estranho. Sei lá....acho que a vida é estranha, só deixa de ser quando se torna memória, linearidade de intantes que seja, que foram, que se transformam em histórias registradas, acessíveis. Mas esse blog tem sido muito estranho. Talvez por isso, as memórias chegadas até aqui são recortes não somente de instantes, mas de longas conexões de agoras, de tempos de se confundir e com isso criar conexões novas. "to ficando cego, pra poder guiar", como já cantava Tom Zé.
MAs na verdade, nem sei porque falar desse blog. Nem sei o que é esse espaço que existe de vez em quando. Nem sei o que não existe de vez em quando. Alguem sabe? Instabilidades? Ou conexões que loucamente grudam, escorrem, colorem e descolorem a paisagem da cidade?
Trabalhar em um Caps está sendo acesso e encontros de histórias intensas, momentos vibrantes. Que lugar é esse? Resposta indefinida. A cidade cheira instabilidade....os entres lançam leves rabiscos. Se arriscam a se misturar... e nessa hora sou parte esta alquimia proposta, sem espera de fórmula e resultados.
A cidade ganha outros níveis. No ônibus, olho de cima as varias ruas que se cruzam carregadas de faróis.
Cada vez mais os lugares tornam-se contorno de corpo. membrana Plasmatica de sabão. Reluzente com o que vem de fora.
Hoje recebi meu primeiro salário.... e confesso que fiquei perdido.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

ô dia, repete?

Todo dia repete o que? O dia?
A lotação e a estrada lotada de caminhão. Asfalto quente, fumaça, uma solidão.
A rua é via, é correria. Informações de vidas que caladas deixam nos vidros engordurados de cabelos amanhecidos restos de olhares. Olhos sem brilho boiam nas faces apáticas, sombreados por olheiras cansadas, causadas de tanto olhá pra tamanha quantidade de gente a andá, a pará, a entrá, saí e levantá.
Duas putas sentam após o fim de expediente, já é manhã.
Uma cega declama seu discurso ensaiado,já é tarde, não percebe que o ônibus está vazio. Senta-se ao meu lado e me expreme com seu não-ver que faz com que os sons dos aviões, motos e outros diversos motores gritem aos meus ouvidos.
O garoto sai da cadeia após dois anos de prisão. Nunca havia visto o modelo novo do carro que passa. Irá tomar café-da-manhã na casa da mãe. Ela não sabe. Ele está feliz.Já é manhã de novo
Wisnik sai da caixa de Mp3 através de um cordão. "Anoitecer":

"É a hora em que o sino toca,
mas aqui não há sinos;
há somente buzinas,
sirenes roucas, apitos
aflitos, pungentes, trágicos,
uivando escuro segredo;
desta hora tenho medo.

É a hora em que o pássaro volta,
mas de há muito não há pássaros;
só multidões compactas
escorrendo exaustas
como espesso óleo
que impregna o lajedo;
desta hora tenho medo.

É a hora do descanso,
mas o descanso vem tarde,
o corpo não pede sono,
depois de tanto rodar;
pede paz - morte - mergulho
no poço mais ermo e quedo;
desta hora tenho medo.

Hora de delicadeza,
gasalho, sombra, silêncio.
Haverá disso no mundo?
É antes a hora dos corvos,
bicando em mim, meu passado,
meu futuro, meu degredo;
desta hora, sim, tenho medo."

sábado, 8 de agosto de 2009

É inverno, e daí?


(foto da katia...linda!http://www.orkut.com.br/Main#AlbumZoom.aspx?uid=7429907756300229000&pid=1249565284983&aid=1249539790$pid=1249565284983)
E aí, soltas no ar, as várias versões de mim se confundem com a paisagem. Cidade loucamente com sua velocidade desprópria, imprória. Mas imprópria a quê?
O basal de mundo que incessantemente e insensatamente tentamos prevêr se dissolve em meio de partículas são cinzas e azul petróleo.
Desapropia o que há seculos inventou esse conceito nada natural de propiedade. Somos a invasão do que não tem dono por natureza. As forças que compõe o contorno apoiético que se faz meus eus é risonho como mar que se destoa em formas: velocidades, espuma e força.
SIm! Por todas as partes gritam os "sins". Sim pelo que há por vir: incerto, nublado, mas tocante.
Afeto que desvai...
Vivo comigo nesta aventura de se viver...
benvindo...sempre vindo ...se movimentando pelos toques e não pelas previsões....

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol

É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o MatitaPereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira

É o vento ventando, é o fim da ladeira

É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
É inverno, e daí?

É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão

É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando, é uma conta, é um conto

É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada

É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã

É inverno, e daí?
É a promessa de vida no teu coração

É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé

É inverno, e daí?
É a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã

É inverno...e daí?
É a promessa de vida no teu coração
pau, pedra, fim, caminho
resto, toco, pouco, sozinho
caco, vidro, vida, sol, noite, morte, laço, anzol

São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração.

domingo, 26 de julho de 2009

Lua nova

Encho meu copo meio cheio de água com sobras de outros copos já bebidos.
Começo a pensar que é preciso lembrar que no fundo você é muito sozinho. E você que vai ter que ir atrás, se movimentar, mexer esse esqueleto coberto de carne, músculo, banha e eticétera ( expandindo ao invisível e aos ocos interiores).O pensamento é interrompido pela voz dela que pergunta:
-Você acha que eu ponho um tênis ou não precisa?
-Eu acho que talvez você vá pisar em poças.
Saímos juntos pelas ruas encharcadas de chuva - Sozinhos.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

DENTE

As mudanças começam a ganhar corpo. Com isso, percebemos que a vida tem velocidade. Aventurar-se por cenários novos. Observar o tempo que passou.

Assim foi naquele dia, ao esperar o chamado que vinha da caixa de som abafada. A sala era clara, cheirava a éter. Pessoas ao meu redor folheavam revistas com suas mochilas cheias de livros e bolsas com pacotes de lenços umidecidos. Sentadas também esperavam seus nomes serem anunciados.
O relógio redondo a cima da janela era mirado por cabeças. Observavam em intervalos curtos de tempo. Sincronizadamente dessincronizadas.
Antes de obturações, finas agulhas perfuram gengivas macias afim de evitar a dor - anestesiamento.
No canto da sala uma Comigo-ninguém-pode esverdeja. Folha que intoxica quem a come. Move-se imperceptivelmente na direção da janela de viro, abaixo do relógio redondo.
"Pérola de Aquilo, sala 3. Pérola de Aquilo, sala 3". Ecoa o som até... A moça levanta-se e caminha. Em seguida ouço ruído de furadeira de dente.
De cinco em cinco o ponteiro anda. Sempre corro para não me atrasar e como resultado ganho adiantamento. Aí preciso me distrair. Mas distrair de quê?

Ao sair do dentista sento na sargeta e acendo o último cigarro do maço.
As mudanças começam a ganhar corpo. Com isso, percebemos que a vida tem velocidade. Aventurar-se por cenários novos. Observar o tempo que passou.

O ônibus 332, movido a biodiesel, aponta depois da curva da rua.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Esvaziando o saco cheio

Décima oitava vez tentando postar alguma coisa. E o movimento é sempre de escrever e apagar, registrar e desaparecer, imprimir e jogar fora. Vai ver porque é assim que as coisas se evidenciam no momento de agora. Parece que tem muita partícula solta no ar... e o que fazer com tudo isso?
Organizar em letras, pensamentos e linearidades parece tarefa da mais enfadonha. Olhos e dedos se cansam um do outro. Aí me vejo assim: uma meta escrita, uma meta vida, uma meta meta meta meta coisa.
"Para frente e avante". Tento me convencer que sei o caminho por onde piso. Mas os registros não colam e pareço encenar a lamúria tendo raiva do ato. Cansei de correr em círculos, de ir e vir procurando no cenário conhecido o que pode fazer desvio. Como se eu não houvesse percebido aquela fruta doce no galho escondido, aquela seta ou aquela hora que anunciava o novo. Tudo está desgastado e enjôo-ativo.
E de uma vez por todas vou parar com esses vícios que insistem em desejar o desejo que nem sei se é meu, que nem sei se É eu...
Sim, eu assumo, mora em mim a dezorganização e o gosto pelo movimento causado por ela: movimento produtivo. A dezorganização como traço que não busca nada além de sua existência, que anda e cresce como as árvores do cerrado: TORTA. Rastros de contornos abstratos, porém belos, vivos e impactantes.
Curvas e laços. Estou extremamente cansado de gente careta e chata (me incluo). Cansei de chamadas orais, entrevistas, provas. Querem me conhecer? DE_SEN_CA_NA. Vai por outras vias, use outros verbos... Se estiver afim de me encontrar, de prosear, de produzir, de jogar...Beleza! Mas não me venha com decifragem, livros de procedimentos e manuais de primeiros socorros... A vida é mais simples que todas essas baboseiras, é menos cansativa do que a busca pela adaptação perfeita. E quanto ao sofrimento? Não se iludam, meus caros, ele dá passagem à vida, ao continuum, a outros ares.
Pronto. Afeto que sai é via que se cria. Agora, caminho...

segunda-feira, 6 de julho de 2009

-o que vem desse sopro de agora?
-Não sei, mas sinto uma leve brisa.
-De onde vem?
-Acho que vem lá de longe, da onde desconheço e nunca fui. Às vezes me bagunça o cabelo por trás, Às vezes me embala o sono com seu assobio frio.
- Mas digo desse sopro de agora.
- Agora? Não vem de lugar nenhum. Ele apenas vai. Sinto como se saísse de meus poros.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Zoé

O vento abre a porta do quarto onde estava a dormir. Ao acordar percebo que é frio. Os olhos se fragilizam com o clarão cinza que vem do sol coberto de nuvens. Acordo.
Dentro da casa estou só. Sem acompanhamento de trilha sonora nem cheiro de comida que está em fogo brando. Sem fumaça de insenso nem andares, respirares, falares de outro.
Lá de fora chega barulho de furadeira e ônibus a freiar. Luminosidade de raios solares que brincam de entrar e sair por entre os cômodos.
Desço pela escada que me leva dos quartos e banheiros até a sala e cozinha. Abro todas as janelas que se fecharam em madrugada escura e mais gelada que agora. Ligo a vitrola e escuto música - balada, chorosa, dançante, ruidosa. Leio livro, anoto. Preparo o almoço - corto substâncias, cheiro tempêro, ligo chamas e toco em água.
A meu convite elas se juntam ao meu dia. Cada coisa que se move e afeta. Invade a casa de recheio. Me acompanha. Sem ninguém.
É calor que brota. Som que vibra meu ouvido. Autor que diz em pensamento meu, no eu. É cigarro que queima vagarosamente enquanto olho as folhas que se mexem. Minhas plantas dão sinal de vida. Explodem em novo - brotos, folhas de um verde claro.
Estou acompanhado de mundo. Eles correspondem da melhor maneira. Respeitam minha solidão com velocidades múltiplas. Contornam meu eu com vida cósmica.
Eu sou apenas aquele que acorda. E isso não é pouca coisa.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Tempos de outonar...

E os sonhadores? Podem viver em terra firme, de pé fechado em calçado e abrir de olhos compassados com despertador de manhãzinha? Sim, meu caro!
MAs por enquanto vou acordando um pouco depois das nove, almoçando dia às 12, dias às 15. A noite sopa de chuchu, de dia músculo cozido com suco de laranja e alhos...alhos inteiros.
Assim vai sendo ... e a casa ganha goteira, e o frio invade a janela que se jogou em dia de risos, que se multiplicou em cacos cortantes de madrugada quieta.
Chá mate, filmes pertubadores e combinações de gargalhadas, de choros amigos, ligações importantes que dirá se vamos ou fico, outras ligações bem menos burocráticas que gritam, que cantam "vamos, Vamos". Pra onde não se sabe...
Produção de si... os sonhadores correm por mim! Ainda bem...

Fala, amendoeira (1957) Carlos Drummond de Andrade

«Esse ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza - essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista reparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre o céu e o chão - névoa baixa e seca, hostil aos aviões. Pousou a vista, depois, nas árvores que algum remoto prefeito deu à rua, e que ainda ninguém se lembrou de arrancar, talvez porque haja outras destruições mais urgentes. Estavam todas verdes, menos uma. Uma que, precisamente, lá está plantada em frente à porta, companheira mais chegada de um homem e sua vida, espécie de anjo vegetal proposto ao seu destino.

Essa árvore de certo modo incorporada aos bens pessoais, alguns fios eléctricos lhe atravessam a fronde, sem que a molestem, e a luz crua do projetor, a dois passos, a impediria talvez de dormir, se ela fosse mais nova. Às terças, pela manhã, o feirante nela encosta sua barraca, e ao entardecer, cada dia, garotos procuram subir-lhe o tronco. Nenhum desses incómodos lhe afeta a placidez de árvore madura e magra, que já viu muita chuva, muito cortejo de casamento, muitos enterros, e serve há longos anos à necessidade de sombra que têm os amantes de rua, e mesmo a outras precisões mais humildes de cãezinhos transeuntes.

Todas estavam ainda verdes, mas essa ostentava algumas folhas amarelas e outras já estriadas de vermelho, gradação fantasista que chegava mesmo até o marrom - cor final de decomposição, depois a qual as folhas caem. Pequenas amêndoas atestavam o seu esforço, e também elas se preparavam para ganhar coloração dourada e, por sua vez, completado o ciclo, tombar sobre o meio-fio, se não as colhe algum moleque apreciador do seu azedinho. E como o cronista lhe perguntasse - fala, amendoeira - por que fugia ao rito de suas irmãs, adotando vestes assim particulares, a árvore pareceu explicar-lhe:

- Não vês? Começo a outonear. É 21 de Março, data em que as folhinhas assinalam o equinócio do outono.Cumpro meu dever de árvore, embora minhas irmãs não respeitem as estações.

- E vais outoneando sozinha?

- Na medida do possível. Anda tudo muito desorganizado, e, como deves notar, trago comigo um resto de verão, uma antecipação de primavera e mesmo, se reparares bem neste ventinho que me fustiga pela madrugada, uma suspeita de inverno.

- Somos todos assim.

- Os homens, não. Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal, meu filho, e teu trabalho é exactamente o que os autores chamam de outonada: são frutos colhidos numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva. Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza.

- Não me entristeças.

- Não, querido, sou tua árvore-da-guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... Outoniza-te com dignidade, meu velho.»

sábado, 16 de maio de 2009

Amargo

Amargo. Assim sinto o mundo. Imundo de restos de cascas, peles, unhas e pêlos. Percebo, mesmo no invisível, todas as sobras destes instantes que passaram. O mundo também é feio. É feito de escarro, do irônico que se espalha por toda a sala, de sentar desconfortável em sofá cheio de espumas velhas que causam alergia.
O mundo também fere. É ferida. É pus de rua. É grito de sofrer e sofrimento de calar-se. É se debater. É se prolongar derretendo-se. É não se querer e pensar em pular. Se admirar imaginando o voar. Quando o sufoco parece não mais só sufocar, mas também deseja empurrar, deseja matar.
Mas o que matar? Matar a mim, o mundo, o agora? A proximidade entre morrer e se sentir morrendo se faz tão presente que não sei mais se há diferença. Fúnebre pensar.
Ele então aluga um quarto no décimo andar daquele hotel no centro da cidade turbulenta. Privado em si olha de cima todo o público recheado de sons de buzina e se entrega a eles. Se joga, e durante alguns segundos sente-se bem. Antecede a morte sensação de viver. Neste instante não mais se morre. Aproveita o ar rasgando sua face e não passa filme de sua vida. Ele apenas olha como a calçada se aproxima com velocidade esclarecedora. Era uma risca, era uma árvore, era uma cesta de lixo. Repara nas cores, nos traços desenhados na rua, nas linhas que se cruzam, nas luzes que se movimentam com o seu cair. O que menos queria neste momento era pensar no que passou. O que quer é sentir de novo a possibilidade de olhar o agora de um jeito menos sufocante. Quer o agora com vento e não mais com água podre parada de esgoto.
O mundo também é feio. O que vem mesmo depois da morte?