quarta-feira, 19 de novembro de 2008

chiclete: uma onomatopéia

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Trabalho/vida

Aconteceu em um desses dias atrás, quando uma usuária veio me perguntar sobre o dilúvio, onde Noé após um logo período de chuva juntou várias bichos, cada um em seu par, e colocou em seu barco para poder salvar a espécie. Ela me perguntou: E os peixes, também subiram no barco? Depois de pensar um pouco sobre esta questão intrigante, respondi que não e perguntei pra ela logo em seguida: E os pássaros? Ela disse que os pássaros sim, pois após a chuva eles não conseguem voar, suas penas se molham e assim, caso não sejam protegidos morrem.
Uma conversa guiada pelo jogo, pela vontade de descobrir uma fenda diante da história que responderia uma questão para mim muito forte: Quando é que precisamos ser salvos e quando é que precisamos de ajuda? Quando a chuva não nos permite viver? Quando o ambiente que nos cerca ganha uma densidade na qual o respirar, o deslocar-se, o ser, fica impossibilitado, por um regra na qual se comunicar com o resto do “barco” majestoso seja uma exigência?
Em baixo da água pouco se ouve. Ao invés do que habitualmente estamos acostumados a ouvir, ouve-se ruídos ou um silêncio que pode nos ensurdecer e até nos impedir de gritar. Embaixo d’água nossos canais auditivos se entopem de uma textura diferente que faz com que nosso contorno seja mais gelatinoso, nossos movimentos sejam mais lentos e repletos de contato com algo mais palpável que o ar. Nos atrevemos a mergulhar, mas não somos peixes,...
E os pássaros ...que nos seus vôos não sentem os pés no chão, olham de cima o que nos é tão distante, a terra. Essa terra que apesar de estarmos com os pés grudados nela permite apenas que visemos o que está mais perto, o que nos cega com a rigidez dos objetos não ultrapassáveis. Eles que estão a plainar sob nossas cabeças podem esquecer que precisam caminhar...até que a chuva chegue, até que seu locomover veloz pelas nuvens ganhe um peso sobre suas asas que lhe fazem lembrar do quanto que voar intensivamente cansa e necessita de pouso.
Mas não somos pássaros... Somos o que não se limita pelas leis das penas impermeáveis nem pelas brânquias alérgicas de ar. Somos uma possibilidade de mergulhar, de voar, e de caminhar. Não nos contentamos com o simples fato de se adaptar em um meio estabelecido pela nossa espécie, precisamos ir além do que nos é dado como existir.
Com o tempo inventamos maneiras de voar pelos continentes, de nadar nas profundezas, de caminhar, de caminhar, de caminhar, sem vista de horizontes como lugar de chegada. Estamos sempre nos locomovendo.
E carregados de sofrer, e cheios de medo.
Assim como dizia Saramago “Somos uma tremula chama que a todo momento ameaça apagar-se”, temos a imensidão das possibilidades e ao mesmo tempo o encontro constante com a morte, com o fim. Não ter sobre nosso controle os efeitos desta invenção chamada tempo, de encontrar peixes voando em um espaço chamado imaginação.
Tentamos construir barcos quando muitas vezes o que se precisa é apenas boiar, com o corpo repleto de ar, mas molhados e envolvidos por água e viver é o maior dos riscos...e inventar a vida é um dos maiores deleites.

sábado, 8 de novembro de 2008

Parceiros...

"Um raio de luz me atravessa a alma:preciso de companheiros. mas vivos, enão de companheiros mortos ecadáveres, que levo para onde quero.preciso de companheiros, mas vivosque me sigam - porque desejemseguir-se a si mesmos – para ondequer que eu vá.Um raio de luz me atravessa a alma:não é à multidão que Zaratustra devefalar, mas a companheiros! Zaratustranão deve ser pastor e cão de umrebanho!Para desgarrar muitos do rebanho, foipara isso que vim. O povo e o rebanhoirritam-se comigo. Zaratustra quer serchamado de ladrão pelos pastores.Eu os denomino pastores, mas eles a simesmos se consideram os fiéis daverdadeira crença! Vede os bons e osjustos! A quem odeiam mais? A quemlhes despedaça as tábuas de valores,ao infrator, ao destruidor. É este, porém,o criador.O criador procura companheiros, nãoprocura cadáveres, rebanhos, nemcrentes; procura colaboradores queinscrevam valores novos ou tábuasnovas.O criador procura companheiros paraacompanhá-lo; porque tudo estámaduro para a ceifa. Faltam-lhe,porém, as cem foices, e por isso arrancaespigas, contra sua vontade.Companheiros que saibam afiar as suasfoices, eis o que procura o criador.Chamar-lhes-ão destruidores edesprezadores do bem e do mal, maseles hão de ceifar e descansar.Colaboradores que ceifem e descansemcom ele, eis o que busca Zaratustra.Que se importa ele com rebanhos,pastores e cadáveres?E tu, primeiro companheiro meu,descansa em paz! Enterrei-te bem, natua árvore oca, deixo-te bem defendidodos lobos.Separo-me, porém, de ti; já passou otempo. Entre duas auroras me iluminouuma nova verdade.Não devo ser pastor nem coveiro.Nunca mais tornarei a falar ao povo;pela última vez falei com um morto.Quero unir-me aos criadores, aos quecolhem e se divertem; mostrar-lhes-ei oarco-íris e todas as escadas que levamao Super-homem.Entoarei o meu cântico aos solitários eaos que se encontram juntos na solidão;e a quem quer que tenha ouvidos paraas coisas inauditas confranger-lhe-ei ocoração com a minha ventura.Caminho para o meu fim; sigo o meucaminho; saltarei por cima dosnegligentes e dos retardados. Destamaneira será a minha marcha o seufim!"
Nietzche

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Paranóia em Astrakan - Roberto Piva


Eu vi uma linda cidade cujo nome esqueci
onde anjos surdos percorrem as madrugadas tingindo seus olhos com lágrimas invulneráveis
onde crianças católicas oferecem limões para pequenos paquidermes que saem escondidos das tocas
onde adolescentes maravilhosos fecham seus cérebros para os telhados
estéreis e incendeiam internatos
onde manifestos niilistas distribuindo pensamentos furiosos puxam
a descarga sobre o mundo
onde um anjo de fogo ilumina os cemitérios em festa e a noite caminha
no seu hálito
onde o sono de verão me tomou por louco e decapitei o Outono de sua
última janela
onde o nosso desprezo fez nascer uma lua inesperada no horizonte
branco
onde um espaço de mãos vermelhas ilumina aquela fotografia de peixe
escurecendo a página
onde borboletas de zinco devoram as góticas hemorróidas das beatas
onde os mortos se fixam na noite e uivam por um punhado de fracas
penas
onde a cabeça é uma bola digerindo os aquários desordenados da
imaginação

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

01/11/2008 A Praça e a caneta o papel e eu se encontram.

Madrugada quente. Após ver na TV um programa sobre curtas de Rogério Sganzerla e me lembrar bastante do amigo Max – curta H.Q, resolvi sair para comprar um cigarro e dar um role até a loja de conveniência que fica em frente à prefeitura. No caminho de volta- comprei também um isqueiro porque esqueci a caixa de fósforo – enquanto fumava pela rua pensei: “Por que só se sai para comprar?” É sempre do lugar conhecido para o lugar com vendedores, bilheteiros, cantores e garçons – todos uniformizados – com trocos, “boa noite” e “obrigado”.
Então entrei em casa, peguei caneta e papel e cá estou no meio desta praça - ela está toda iluminada.
Em volta deste enorme quadrado passam carros, passa gente. O tilintim do mensageiro dos ventos chega até meus ouvidos, vindo da janela de um destes enormes prédio que rodeiam a praça.
... Mudo de lugar. Porque aqui na praça apareceu um enorme morcego voando, assim como em Assis. Me lembrei do amigo Rafa e eu correndo agachados da praça de Assis em direção à antiga casa.
Agora estava pensando em o que iria escrever e passou um moço e disse:
-Me arruma um cigarro aê, irmão?
Respondi “lógico”. Ele acendeu, agradeceu “obrigado, irmão” e continuou a andar vendo pelo ambiente se encontrava latas para juntar a outras latas que carregava em um saco.
Muitos carros circulam em torno da praça. Não se vê quem está dentro dos carros. Se vê o carro, o farol e vidros meio abertos que apontam nuances espretiadas. Ouve-se o barulho dos pneus roçando o chão e às vezes sons de origem humana: música e vozes. Nos carros de hoje pouco se escuta dos motores.
Perto daqui há um ponto de taxistas, em roda conversam.
Descanso a caneta...
Com exceção do moço do cigarro, ninguém mais cruzou a praça. Eu passei, sentei, levantei, sentei de novo e cá estou. Ninguém mais parou na praça, e ela é tão bonita. As praças, a praça pública sendo lugar de estacionar o corpo.
Acredito que está na hora de sairmos de nossas casas para sentar um pouco nas praças. Imagino se em cada banco estivesse pessoa. São bancos destes de praça mesmo, de madeira com braços circulares de ferros. O engraçado é que é difícil imaginar pessoas. Qualquer um podia estar sentado nesses bancos e ao mesmo tempo ninguém podia estar sentado nesses bancos.
A essa hora as pessoas estão em suas casas ou por aí –Lembro que deve ser por volta de umas 2:30 da madrugada de sábado para domingo –menos nessa praça.
Ultimamente estou com menos medo das pessoas, dos encontros. Estão sendo tão diversos e muitas vezes surpreendentes e inovadores. Não que sejam sempre agradáveis, vezes são hostis e ríspidos. É que aquém de toda a imensidão das coisas produzidas –e daí penso em idéias, sensações, sentimentos e mais um monte de outras coisas que nomeio –são simples encontros. Com o que de mais belo possa se pensar da palavra “simples”. E é com essa simplicidade também presente na vida com seus encontros que termino esse texto aqui nesta bela praça.
...
Levanto e deixo um pequeno bilhete no banco...
“Estive sentado neste banco desta praça hoje, sábado, numa madrugada muito agradável. Este momento foi inspirador para a vida. Espero que ao ler este bilhete algo mude em seu olhar, e com isso sinta-se mais à vontade em habitar o mundo. Somos todos humanos e o medo não é nossa qualidade mais bela. Boa noite.”