domingo, 26 de julho de 2009

Lua nova

Encho meu copo meio cheio de água com sobras de outros copos já bebidos.
Começo a pensar que é preciso lembrar que no fundo você é muito sozinho. E você que vai ter que ir atrás, se movimentar, mexer esse esqueleto coberto de carne, músculo, banha e eticétera ( expandindo ao invisível e aos ocos interiores).O pensamento é interrompido pela voz dela que pergunta:
-Você acha que eu ponho um tênis ou não precisa?
-Eu acho que talvez você vá pisar em poças.
Saímos juntos pelas ruas encharcadas de chuva - Sozinhos.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

DENTE

As mudanças começam a ganhar corpo. Com isso, percebemos que a vida tem velocidade. Aventurar-se por cenários novos. Observar o tempo que passou.

Assim foi naquele dia, ao esperar o chamado que vinha da caixa de som abafada. A sala era clara, cheirava a éter. Pessoas ao meu redor folheavam revistas com suas mochilas cheias de livros e bolsas com pacotes de lenços umidecidos. Sentadas também esperavam seus nomes serem anunciados.
O relógio redondo a cima da janela era mirado por cabeças. Observavam em intervalos curtos de tempo. Sincronizadamente dessincronizadas.
Antes de obturações, finas agulhas perfuram gengivas macias afim de evitar a dor - anestesiamento.
No canto da sala uma Comigo-ninguém-pode esverdeja. Folha que intoxica quem a come. Move-se imperceptivelmente na direção da janela de viro, abaixo do relógio redondo.
"Pérola de Aquilo, sala 3. Pérola de Aquilo, sala 3". Ecoa o som até... A moça levanta-se e caminha. Em seguida ouço ruído de furadeira de dente.
De cinco em cinco o ponteiro anda. Sempre corro para não me atrasar e como resultado ganho adiantamento. Aí preciso me distrair. Mas distrair de quê?

Ao sair do dentista sento na sargeta e acendo o último cigarro do maço.
As mudanças começam a ganhar corpo. Com isso, percebemos que a vida tem velocidade. Aventurar-se por cenários novos. Observar o tempo que passou.

O ônibus 332, movido a biodiesel, aponta depois da curva da rua.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Esvaziando o saco cheio

Décima oitava vez tentando postar alguma coisa. E o movimento é sempre de escrever e apagar, registrar e desaparecer, imprimir e jogar fora. Vai ver porque é assim que as coisas se evidenciam no momento de agora. Parece que tem muita partícula solta no ar... e o que fazer com tudo isso?
Organizar em letras, pensamentos e linearidades parece tarefa da mais enfadonha. Olhos e dedos se cansam um do outro. Aí me vejo assim: uma meta escrita, uma meta vida, uma meta meta meta meta coisa.
"Para frente e avante". Tento me convencer que sei o caminho por onde piso. Mas os registros não colam e pareço encenar a lamúria tendo raiva do ato. Cansei de correr em círculos, de ir e vir procurando no cenário conhecido o que pode fazer desvio. Como se eu não houvesse percebido aquela fruta doce no galho escondido, aquela seta ou aquela hora que anunciava o novo. Tudo está desgastado e enjôo-ativo.
E de uma vez por todas vou parar com esses vícios que insistem em desejar o desejo que nem sei se é meu, que nem sei se É eu...
Sim, eu assumo, mora em mim a dezorganização e o gosto pelo movimento causado por ela: movimento produtivo. A dezorganização como traço que não busca nada além de sua existência, que anda e cresce como as árvores do cerrado: TORTA. Rastros de contornos abstratos, porém belos, vivos e impactantes.
Curvas e laços. Estou extremamente cansado de gente careta e chata (me incluo). Cansei de chamadas orais, entrevistas, provas. Querem me conhecer? DE_SEN_CA_NA. Vai por outras vias, use outros verbos... Se estiver afim de me encontrar, de prosear, de produzir, de jogar...Beleza! Mas não me venha com decifragem, livros de procedimentos e manuais de primeiros socorros... A vida é mais simples que todas essas baboseiras, é menos cansativa do que a busca pela adaptação perfeita. E quanto ao sofrimento? Não se iludam, meus caros, ele dá passagem à vida, ao continuum, a outros ares.
Pronto. Afeto que sai é via que se cria. Agora, caminho...

segunda-feira, 6 de julho de 2009

-o que vem desse sopro de agora?
-Não sei, mas sinto uma leve brisa.
-De onde vem?
-Acho que vem lá de longe, da onde desconheço e nunca fui. Às vezes me bagunça o cabelo por trás, Às vezes me embala o sono com seu assobio frio.
- Mas digo desse sopro de agora.
- Agora? Não vem de lugar nenhum. Ele apenas vai. Sinto como se saísse de meus poros.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Zoé

O vento abre a porta do quarto onde estava a dormir. Ao acordar percebo que é frio. Os olhos se fragilizam com o clarão cinza que vem do sol coberto de nuvens. Acordo.
Dentro da casa estou só. Sem acompanhamento de trilha sonora nem cheiro de comida que está em fogo brando. Sem fumaça de insenso nem andares, respirares, falares de outro.
Lá de fora chega barulho de furadeira e ônibus a freiar. Luminosidade de raios solares que brincam de entrar e sair por entre os cômodos.
Desço pela escada que me leva dos quartos e banheiros até a sala e cozinha. Abro todas as janelas que se fecharam em madrugada escura e mais gelada que agora. Ligo a vitrola e escuto música - balada, chorosa, dançante, ruidosa. Leio livro, anoto. Preparo o almoço - corto substâncias, cheiro tempêro, ligo chamas e toco em água.
A meu convite elas se juntam ao meu dia. Cada coisa que se move e afeta. Invade a casa de recheio. Me acompanha. Sem ninguém.
É calor que brota. Som que vibra meu ouvido. Autor que diz em pensamento meu, no eu. É cigarro que queima vagarosamente enquanto olho as folhas que se mexem. Minhas plantas dão sinal de vida. Explodem em novo - brotos, folhas de um verde claro.
Estou acompanhado de mundo. Eles correspondem da melhor maneira. Respeitam minha solidão com velocidades múltiplas. Contornam meu eu com vida cósmica.
Eu sou apenas aquele que acorda. E isso não é pouca coisa.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Tempos de outonar...

E os sonhadores? Podem viver em terra firme, de pé fechado em calçado e abrir de olhos compassados com despertador de manhãzinha? Sim, meu caro!
MAs por enquanto vou acordando um pouco depois das nove, almoçando dia às 12, dias às 15. A noite sopa de chuchu, de dia músculo cozido com suco de laranja e alhos...alhos inteiros.
Assim vai sendo ... e a casa ganha goteira, e o frio invade a janela que se jogou em dia de risos, que se multiplicou em cacos cortantes de madrugada quieta.
Chá mate, filmes pertubadores e combinações de gargalhadas, de choros amigos, ligações importantes que dirá se vamos ou fico, outras ligações bem menos burocráticas que gritam, que cantam "vamos, Vamos". Pra onde não se sabe...
Produção de si... os sonhadores correm por mim! Ainda bem...

Fala, amendoeira (1957) Carlos Drummond de Andrade

«Esse ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza - essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista reparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre o céu e o chão - névoa baixa e seca, hostil aos aviões. Pousou a vista, depois, nas árvores que algum remoto prefeito deu à rua, e que ainda ninguém se lembrou de arrancar, talvez porque haja outras destruições mais urgentes. Estavam todas verdes, menos uma. Uma que, precisamente, lá está plantada em frente à porta, companheira mais chegada de um homem e sua vida, espécie de anjo vegetal proposto ao seu destino.

Essa árvore de certo modo incorporada aos bens pessoais, alguns fios eléctricos lhe atravessam a fronde, sem que a molestem, e a luz crua do projetor, a dois passos, a impediria talvez de dormir, se ela fosse mais nova. Às terças, pela manhã, o feirante nela encosta sua barraca, e ao entardecer, cada dia, garotos procuram subir-lhe o tronco. Nenhum desses incómodos lhe afeta a placidez de árvore madura e magra, que já viu muita chuva, muito cortejo de casamento, muitos enterros, e serve há longos anos à necessidade de sombra que têm os amantes de rua, e mesmo a outras precisões mais humildes de cãezinhos transeuntes.

Todas estavam ainda verdes, mas essa ostentava algumas folhas amarelas e outras já estriadas de vermelho, gradação fantasista que chegava mesmo até o marrom - cor final de decomposição, depois a qual as folhas caem. Pequenas amêndoas atestavam o seu esforço, e também elas se preparavam para ganhar coloração dourada e, por sua vez, completado o ciclo, tombar sobre o meio-fio, se não as colhe algum moleque apreciador do seu azedinho. E como o cronista lhe perguntasse - fala, amendoeira - por que fugia ao rito de suas irmãs, adotando vestes assim particulares, a árvore pareceu explicar-lhe:

- Não vês? Começo a outonear. É 21 de Março, data em que as folhinhas assinalam o equinócio do outono.Cumpro meu dever de árvore, embora minhas irmãs não respeitem as estações.

- E vais outoneando sozinha?

- Na medida do possível. Anda tudo muito desorganizado, e, como deves notar, trago comigo um resto de verão, uma antecipação de primavera e mesmo, se reparares bem neste ventinho que me fustiga pela madrugada, uma suspeita de inverno.

- Somos todos assim.

- Os homens, não. Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal, meu filho, e teu trabalho é exactamente o que os autores chamam de outonada: são frutos colhidos numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva. Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza.

- Não me entristeças.

- Não, querido, sou tua árvore-da-guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... Outoniza-te com dignidade, meu velho.»

sábado, 16 de maio de 2009

Amargo

Amargo. Assim sinto o mundo. Imundo de restos de cascas, peles, unhas e pêlos. Percebo, mesmo no invisível, todas as sobras destes instantes que passaram. O mundo também é feio. É feito de escarro, do irônico que se espalha por toda a sala, de sentar desconfortável em sofá cheio de espumas velhas que causam alergia.
O mundo também fere. É ferida. É pus de rua. É grito de sofrer e sofrimento de calar-se. É se debater. É se prolongar derretendo-se. É não se querer e pensar em pular. Se admirar imaginando o voar. Quando o sufoco parece não mais só sufocar, mas também deseja empurrar, deseja matar.
Mas o que matar? Matar a mim, o mundo, o agora? A proximidade entre morrer e se sentir morrendo se faz tão presente que não sei mais se há diferença. Fúnebre pensar.
Ele então aluga um quarto no décimo andar daquele hotel no centro da cidade turbulenta. Privado em si olha de cima todo o público recheado de sons de buzina e se entrega a eles. Se joga, e durante alguns segundos sente-se bem. Antecede a morte sensação de viver. Neste instante não mais se morre. Aproveita o ar rasgando sua face e não passa filme de sua vida. Ele apenas olha como a calçada se aproxima com velocidade esclarecedora. Era uma risca, era uma árvore, era uma cesta de lixo. Repara nas cores, nos traços desenhados na rua, nas linhas que se cruzam, nas luzes que se movimentam com o seu cair. O que menos queria neste momento era pensar no que passou. O que quer é sentir de novo a possibilidade de olhar o agora de um jeito menos sufocante. Quer o agora com vento e não mais com água podre parada de esgoto.
O mundo também é feio. O que vem mesmo depois da morte?

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Fumar...

Seca, a fumaça chega aos lábios por via de dois dedos longos erguidos. O cigarro a cospe dentro de mim. E num beijo demorado a antropofagizo durante o percurso que me faz de via. E quando não mais somos juntos, a sopro. Agora nela também sou mundo. Por ares ela voa mais dissipada, mais suscetível. Ao vento, mais misturada. Se perde no ar, se ganha no ar.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Me solta de mim!

E no rebuliço que é Vida, pisa. Pé direito e pé esquerdo, rodopiando a saia na beira do chão.

Coloco a mochila nas costas e sumo um pouco de mim no agora.
Estrada que me leva embora. Embora de lá que nunca fui, indo.
Sondo cidades que desabitam raiz. Brinco de morto-vivo. Perco, vivo.
Durmo no chão, bem. Bem no chão. Durmo no frio chão da cidade de São paulo. Durmo bem no frio chão da cidade de São paulo. Ao som de violino, cercado de outros sonos. Bem.
E assim foram semanas de presente para mim. Semanas de caramujo. Sendo casa, sendo corpo, sendo mala.
Por mim viajei amigavelmente. Para que o sair e o ficar ganhassem seus devidos lugares, apenas lugares. O farelo que fica por Onde-quer-que-seja é sobra dispensável. Apenas me levo com massa que faz miolo e casca. O que cai e se espatifa no ar é para não deixar gosto, para não me ser mais.
Pois é na rua que minha dança pesa, leve. Levo.
Pois é de perto que distancio de mim a vergonha - invenção besta e ressentidamente seca.
Pois é na rua que minha dança leve pesa. E só na rua, sem quartos particulares, sem endereços fixos, sem colchão próprio e planta minha que pude distanciar-me de mim.

"Me procurei a vida inteira e não me achei -pelo que fui salvo" (m. barros)

Por mim viajo...

E mesmo sem depositar vontade nos dias, eles continuaram andando.
No meio da correria houve então uma época que no meio do meio-dia a bala de canhão acertou o relógio da Praça Central.
Na inércia, pequenos estilhaços de ponteiros se cravaram em placentas pré-fabricadas.
A verde gosma escorreu pelos poros que antes se entupiam de poeira. Os pêlos nasceram. E somente após o instante que perceberam o crescer dos pêlos, o tempo pode ser esquecido. Pois de mim saiu confuso o mundo. E este, neste, deste dia eu fagocito o mundo e ele ora deliciosamente ora não me enfia guela abaixo...

Campinas-Guaíra-Assis-SãoPaulo...

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Companheira singela


E aquele rosto me surpreendeu de tamanha beleza e delicadeza, mesmo tendo olhado nele por tantas vezes sem decodificar nada... Sim! Ela é uma companheira.
E não me importa mais se no mundo pareço perdido, pareço sem rumo, se a conta irá ser além do barato. E é na conversa do bar, no dia que a porta abre repentina e entra um ar quente pela nossa casa, cheio de vida....Sim, ela é companheira.
E assim vamos escrevendo uma história linda de viver...cheia de saco-cheio, cheia de "ai-meu-deus-fudeo"...E assim vamos escrevendo com instantes, momentos, lugares verde-laranja, campinas-praça, miséria-fartura....
Sim, ela é companheira!!!!

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Resistor de chuveiro

Acabei de matar mais um bicho de sete cabeças...rs
Sempre fui um cagão. Tenho medo de panela de pressão, de trocar butijão de gás, de acender o forno, e coisas do gênero, assim por diante.
Já ouvi histórias bizarras de uma tia do amigo de um vizinho que perdeu a cabeça cozinhando feijão. Outra em que a panela explodiu, perfurou o chão e foi parar no apartamento de baixo. Coisas na qual nunca soube se eram verdades, mas que me assombravam a cada tssssssssssssssssssssssssssssss...ts ts ts ts...que soava da cozinha... e sempre abrir uma tampa tornou-se com o tempo exercício de extrema coragem para mim... e a cada tampa aberta me sentia aliviado por enfrentar esse medo que parece bobo, mas pode ser "ex-tre-ma-men-te" perigoso (ouço minha vó falando)...rs
Outros medos fui perdendo com o tempo. Acender o forno agora tiro de letra. Apesar de lembrar da cena em que minha mãe pulou para trás junto a um buuuuuuuuuuuum e um clarão que vinha da cozinha...Ela sobreviveu!
Acredito que hoje foi um desses dias marcantes na história de dasafiar a si diante de repertório de referenciais recheados de histórias mirabolantes de horrores e catastrofes (ufa!). hoje, pela primeira vez na vida tive a ousadia e coragem de trocar o resistor do chuveiro...
Após comprar a estranha peça envolvida por um plástico. E depois de perguntar ao vendedor como faria tal substituição, chego em casa animado com esta aventura.
Primeiro passo: desligar a caixa de força e deixar a casa sem energia elétrica. Testo apertar o interruptor das lâmpadas e nada acontece. Pareço estar seguro. Mas e se o chuveiro for ligado a uma caixa especial que ainda não conheço? E se alguém chegar e ao perceber que as luzes não estão acendendo ligar a caixa sem me ver no andar de cima pendurado no chuveiro?
Lembro de mais uma história em que o cara levou um choque enquanto tomava banho e ficou grudado eletrocutado... e o engraçado eh que ao contarem essa história para mim o mais enfatizado pelas pessoas era o fato do sujeito estar pelado... Diziam: "imagine que constrangedor, ele estava pelaaadãããão".. enfim...
Começo a estranha função de recriar uma máquina que transforma água gelada em quente. Conforme indicação do vendedor, desemboco a primeira parte do chuveiro. Desemboco uma segunda parte do chuveiro E me encontro no cerne do problema. A célula de toda questão.
Leio o manual de instruções para não haver falhas. Transpiro. E toco o antigo resistor enferrujado e com ar de cansado. Retiro de sua locação. E com a sensação de estar indo bem, enfio no chuveiro a parte que lhe faltava para esquentar meus banhos quentes de dias mais-ou-menos frios, como o de hoje.
Ouço a voz do vendedor dizendo " Não ligue o chuveiro sem antes preenchê-lo de água, senão queima, senão estraga o resistor, ". Senão.. (viche, penso). Ligo o chuveiro desligado, impotente, servindo só de passador de água...
Logo após ligo a força. As luzes se acendem. E vou correndo ao banheiro verificar se a mágica havia se concretizado. E sim. A água saia morna!
Tiro a roupa. Pego o som. Escolho a trilha sonóra do filme da Amelie Polan...E depois de uma semana tomando banho de canequinha, me enfio embaixo do chuveiro e viajo...feliz da vida por ter conseguido não resistir mais ao resistor... Se bem que o banho com alecrim foi muito bom... e nessa semana certeza que economizamos na conta de luz!

Banho de caneca

O que acredita você? Nisto, que os pesos de todas as coisas precisa ser novamente determinados.

O que diz sua consciencia? "Torne-se aquilo que você é".
Nietzsche

Viagens no "A Gaia ciência". Tomando banho com água esquentada com alecrim- pq o chuveiro queimou e não comprei ainda um resistor novo- e comendo bolo de banana com uma calda suculenta em sua superfície...enfim...vivendo...
NA expectativa da próxima viagen.... Assis....retorno à cidade onde vivi cinco anos de minha vida intensamente...Rever amigos, ouvir boa música e me encontrar com combinações que há tempos não visualizo-tateio-escuto-degusto...Poros abertos mas sem medo de me espantar com uma cidade que talves nunca fui......ser turista em cenário conhecido....Assim como as pessoas, as cidades também mudam com a distancia e o tempo. Poros abertos e postura de jovem!
Acho que sairei da frente desse computador e irei comprar um resistor para o chuveiro. Banho de água esquentada com alecrim é gostoso....mas as vezes precisamos mesmo é de um tempinho maior embaixo de água quente...
Fui, sem mais delongas...

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Um estranho "ameaço"


As portas das praças estão abertas. Mas ninguém se atreve a atravessá-las, e menos ainda em parar embaixo de alguma árvore e sentar. Vejo apenas, da janela de meu apartamento, sombras solitárias balançadas pelo vento da madrugada.
Aonde aprisiona-se cada mundo?
Em cada casa acompanhado de outros mundos supostamente conhecidos... MEU computador, MINHA televisão, MINHA família, MEU cachorro e assim por diante.
Após ouvir histórias de assalto pela redondeza de MINHA casa fui consumido por um andar diferente de MINHAS pernas pelas ruas. Desconfiado, parecia que os passos acelerados poderiam me levar rapidamente ao território que aproxima o Eu ao MEU. E estrangeiro de minha raça, humana, vejo naquele que caminha uma suposta ameaça, um suposto invasor de mim. E não é apenas medo de ser abordado com um revólver ou um estilete. Vejo nas ruas da cidade, no público que compõe o público, ameaças de mulheres que também aos passos rápidos enxugam lágrimas que brotam de si. Me ameaço quando corpos estendidos pelo chão se tornam meros objetos de uma decoração invisível. Me ameaço quando me perguntam as horas e quando me pedem moedas.
Nos sinais, ao atravessar as faixas brancas pintadas no asfalto negro, vejo os carros -à espera do sinal verde- simultaneamente fecharem suas janelas para que não haja invasões, devido a ameaça.
Mas que ameaça é esta que no repente do andar, que no virar do pescoço se mostra, se sente? não sei o que ela é, mas invisivelmente vem se esconder em mim.
Como se pelas ruas os mundos desconhecidos tivessem grades. Como se eu fosse bexiga que lentamente se esvazia.
Uma ameaça-vírus que se propaga no invisível. Com cada notícia de assalto, com cada muro erguido em condomínios, com o espetáculo gerado por crianças arremessadas de prédios e namorados que matam amores.
Mas não são notícias, nem assuntos que me invadem como se em mim houvesse apenas receptáculo de horrores. As ameaças perduram pois nelas consigo firmar o confortável lugar do comodismo.
Sendo assim, me ameaço. Me ameaço para tentar salvar esse cotidiano redondo, sem relevo, que carrego todo dia. Para que somente em minha companhia esteja o conhecido, o previsível... As praças de madrugada continuarão vazias. Nos ônibus os assentos com dois lugares vagos serão preenchidos primeiro. Nas filas continuará o solitário pensar de vidas ameaçadas.

Vamos lá, seres humanos! A verdade não existe, se desfaz no encontro com o novo.
E grito o que em mim me ameaço, para que eu possa me dissolver, me misturar, me expandir com um "oi", ou então com uma afirmação: "Você é meu companheiro"...e assim estabelecer diálogo. Nada tem que ser como parece ser...

Diálogo (Caio Fernando Abreu)

A: Você é meu companheiro.
B: Hein?
A: Você é meu companheiro, eu disse
B: O quê?
A: Eu disse que você é meu companheiro.
B: O que é que você quer dizer com isso?
A: Eu quero dizer que você é meu companheiro, Só isso.
B: Tem alguma coisa atrás, eu sinto.
A: Não. Não tem nada. Deixa de ser paranóico.
B: Não é disso que estou falando.
A: Você está falando do quê, então?
B: Estou falando disso que você falou agora.
A: Ah, sei. Que eu sou teu companheiro.
B: Não, não foi assim: que eu sou teu companheiro.
A: Você também sente?
B: O quê?
A: Que você é meu companheiro?
B: Não me confunda. Tem alguma coisa atrás, eu sei.
A: Atrás do companheiro?
B: È.
A: Não.
B: Você não sente?
A: Que você é meu companheiro? Sinto, sim. Claro que eu sinto. E você, não?
B: Não. Não é isso. Não é assim.
A: Você não quer que seja isso assim?
B: Não é que eu não queira: é que não é.
A: Não me confunda, por favor, não me confunda. No começo era claro.
B: Agora não?
A: Agora sim. Você quer?
B: O quê?
A: Ser meu companheiro.
B: Ser teu companheiro?
A: È.
B: Companheiro?
A: Sim.
B: Eu não sei. Por favor não me confunda. No começo era claro. Tem alguma coisa atrás, você não vê?
A: eu vejo. Eu quero.
B: O quê?
A: Que você seja meu companheiro.
B: Hein?
A: Eu quero que você seja meu companheiro, eu disse.
B: O quê?
A: Eu disse que eu quero que você seja meu companheiro.
B: Você disse?
A: Eu disse?
B: Não, não foi assim: eu disse.
A: O quê?
B: Você é meu companheiro.
A: Hein?
(ad infinitum)



Texto desencadeado após encontrar-me com o filme "O Anjo Exterminador", 1963. Dir.: Luis Buñuel

O solitário - Nietzsche, 1882

Para mim é odioso seguir e também guiar.
Obedecer? Não! E tão pouco -governar!
Quem não é terrível para si, a ninguém inspira terror:
E somente quem inspira terror é capaz de comandar.
Para mim já é odioso comandar a mim mesmo!
Gosto, como os animais da floresta e do mar,
De por algum tempo me perder,
De permanecer num amável recanto a cismar,
Seduzindo-me para voltar a mim

sábado, 18 de abril de 2009

Goles de si

E ao abrir os olhos depois de um repentino piscar viu à sua frente as mesmas cores com outras tonalidades. Sentiu-se confortavelmente possível pois sentia que mudava a temperatura do ar, que um pássaro ao longe naquele instante resolveu cantar e que a senhora que cortava a rua soltou um arroto expressado de maneira tão grave que aquele corpo aparentemente frágil guardava em si a força de mover o ar, com força.
E então percebeu que a explicação é mero exercício banal e descrever é síntese entre corpo e mundo.
Coçou a bunda e caminhou mais um pouco.

A folha balança no alto. Sem pretenção de cair.

O vento sopra. De onde veio? Não importa.

Eles se encontram. E num doce bailar se juntam. E se levam. A folha e o vento.

Organizou a pia para lavar a louça. Separou em um canto todos os talheres. As panelas engorduradas preencheu com água e detergente e as colocou para o depois em cima do fogão. Copos próximos e pratos empilhados. Enxarcou a bucha com espuma. Abriu a torneira e deixou a água jorrar pelas suas mãos. Lavou. E aos poucos tudo se transformara. Todas as louças livres de restos. Com comida crua repreencheu . Ao fogo misturou, temperou e degustou....

Ao ouvir o telefone tocar, abaixou o som da vitrola - o trecho era " procissão, espalhando todo povo pelo chão...". Atendeu e só escutou o ruído de uma ligação perdida. Foi à geladeira, abriu uma lata de cerveja e de gole em gole pensava no que sentiu da Vida...

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Minhas páginas em branco

A vida que se conta como se fosse um livro separado por capítulos deixa entre cada fim de trecho um buraco que realmente somente páginas brancas podem preenchê-lo. É como se em um certo momento eu pingasse a caneta marcando um ponto final e depois virasse a folha e recomeçasse a escrever a continuidade de um corpo que não é mais o mesmo, mas representa o mesmo personagem. Agora vestido de nova roupagem e olhado por outras nuances de olhares. Como se ao terminar o capítulo intitulado criança apagassem as luzes e ao abrir novamente a cortina surgisse um adolescente desengossado, um ator ainda terminando de se vestir para contracenar com um cenário que venerava desde antes e que agora o coloca diante de holofote intenso, de falas onde o usual são palavras que seu idioma até então desconhecia.
Me disseram que poderia escrever minha história da maneira que eu quisesse - lembro quando isso foi dito minutos antes daquela luz de mesa cirúrgica ofuscar meus olhos que somente enxergavam vermelho. Também lembro do médico dizer para a enfermeira que eram 07:05, para que registrasse meu primeiro nascimento, e consequentemente meu primeiro falecimento. Não poderia mais habitar o antigo teatro... e neste instante esguelei de chorar, apesar disso não me lembrar, fiquei um tanto surdo com o grito de mim...
-Escreva o livro, mas respeite os limites dado a cada capítulo. Não ultrapasse o número de páginas, não ultrapasse o tempo de escrita...seja rápido, corra atrás daquele que você será daqui a pouco...Vá se despindo, vá vestindo.... Nãããão! não sobreponha nem fique pelado... corre, corre que agora vai recomeçar!
E já estava eu de novo sendo outro...ora de barba, ora me embreagando de primeiras masturbações, beijos, sexo...
E no enrosco de cada página branca que precedia cada capítulo "novo" havia momentos lindos que tenho a sensação que esqueci. E aquém das vozes que ditavam o tempo que se esgotava havia choros frenéticos gritados na cochia. Nada mais que o encontro entre meus eus que se entendiam com linguajar próprio...Pudia acordar-me (tanto no que diz de contratuar como de despertar) comigo mesmo que multiplos elementos podem sim habitar o mesmo corpo. E a subita imposições de vozes eram somente ventos exteriores que inventavam espaços e que serviam carapaças... O grito cessava, assim como o primeiro choro, contudo deixavam ressonancias que tremiam não mais pele visível, mas carne, visceras... e sempre nas cochias me encontrava com os outros eus...que juntos choravam, brincavam, sorriam das vozes. Vozes que eu fazia questão de torna-las surdas. Elas não conheciam meu alfabeto...
E assim agente vai vivendo... Apesar daquilo que pensa ler-nos. Eles não sabem de nada... nem eu mesmo sei.
As páginas brancas na verdade estão escritas de branco, eu lembro muito bem quando as escrevi. Tornaram marcas invisíveis com o tempo, mas ao tocar o papel eram recheadas de textura úmida. E confesso que o livro inteiro está escrito de branco. O que hoje escrevo aqui é apenas a versão que a voz acha ser a real...
O que detêm a mistura de todas as cores é o branco ou o preto?

Texto desencadeado após assistir "Buenos Aires 100 Km", 2004. Dir. Pablo José Meza

quarta-feira, 15 de abril de 2009

...



"Não tem um, tem dois
Não tem dois, tem três
Não tem lei, tem leis
Não tem vez, tem vezes
Não tem deus, tem deuses
Não tem cor, tem cores
Não há sol a sós"
Texto: Arnaldo Antunes
Foto: Gui (Lago Maracá em Guaíra-SP)

...

"Existe algo terrível na realidade, eu sei oo que é, mas não quuero dizer"
Almodovar

E nesse ridículo que é viver saio em alta velocidade pelas estradas que me ligam do agora a outras horas. Fugir às vezes é ato de coragem. Ato de renúncia ao que é dado como imposição de ser. E com maquiagem pinto a face preta-e-branca da realidade. O caos ganha gosto de vinho branco seco gelado e no fundo de toda perdição encontro em minha casa de sempre uma criança de dois anos que sorri, brinca e me chama de bobo...

sexta-feira, 10 de abril de 2009

o balançar de uma menina...

Quando olho pela janela vejo a menina dançando. Por meio de ares, pulos, andares. Ela não sorri, apenas fecha seus olhos e deixa todas as notas, batidas e ritmos serem seu corpo. Ela é o seu corpo, não faz dele instrumento de mentiras para ninguém. A menina dança.

Tudo ao seu fundo é estático: Árvores, céu e um homem que vende balões. Ninguém a vê. São corpos ilustrativos, destes que passamos sem existirem, sem esbarrarmos, que marcham. É tudo cenário. Somente a menina existe de verdade, pois ela está de olhos fechados.

Sua dança é uma mistura de vento e notas musicais. Seus braços parecem pêndulos e suas pernas são como varetas jogadas de mãos dispostas a brincar.

Sem parar, a música toca em um ritmo incessante e nada muda em meus olhos, sempre vejo a menina dançando entre cenários humanos. Mas ela está de olhos fechados e só o que ela vê é de verdade. Ela é seu corpo.

terça-feira, 7 de abril de 2009

"A relevância do eu-interior" e|ou "Carcaça de veludo"

Sim, agora me conhecerei por dentro de verdade. Tomei esta decisão por reconhecer a importância de poder ver as formas e cores que em mim habitam. Afinal de contas a maioria das pessoas já tem acesso a seu conteúdo e me disseram que alguns profissionais, que estão começando neste ramo agora cobram preços bem reduzidos e parcelam em muitas vezes o serviço completo.

Lembro do meu espanto quando pela primeira vez ouvi falar destas técnicas. Foi em uma das exposições de um tal museu de arte contemporânea pós-pós-moderna de alguma cidade conhecida por seu espírito de vanguarda. Caderno de Cultura do Jornal do estado, era isso, há mais ou menos uns dezesseis anos atrás. A reportagem localizava-se na metade da folha inferior daquela página, algumas fotos mostravam o trabalho artístico. Achei interessante, fotos de vários ângulos, focos e enquadramentos. Em entrevista, o artista explicava que gostaria de lançar um novo olhar ao que era de mais profundo nos seres humanos. O trabalho consistia em expor ao público fotos de pessoas no meio de processos cirúrgicos. O fotógrafo tentava se deter ao que aparecia depois dos cortes, ao que vinha aos olhos depois de ser rasgado. Contou que as pessoas que permitiram ser fotografadas ficaram lisonjeadas com o resultado daquela experiência, pois tinham a sensação ao se depararem com o que lhe preenchia por dentro, de que naquele momento todo um recheio tomava conta de um vazio que carregavam durante toda a vida.

O assunto apareceu em algumas rodas de conversa em bares e na hora do café-cigarro. Alguns achavam extremamente estranho, e riam desta “maluquice”. Outros diziam que podia ter à ver mesmo, pois estudos anteriores revelavam muito de alguém através da leitura da íris ou das mãos ou dos fios de cabelo e acreditavam que talvez por dentro que encontraríamos as explicações de cada existir e o estancamento de todo sofrer. Depois de algumas semanas o assunto não mais foi pauta, no lugar dele vieram o fim da novela das oito, o casamento de Suzy Malaquias e depois três pontinhos e depois três pontinhos e depois...preenchimento de tédio, enchimento do tédio, esvaziamento do tédio...enfim, conversas cotidianas.

Já havia me esquecido desta história de tirar fotos de operações, de tentar enxergar o que há dentro de cada um. Mas esses dias atrás, enquanto dava pipoca aos pombos da Praça Carlos Gomes, vejo uma senhora gorda de vestido florido correndo em direção a um senhor magrelo de chapéu de palha dizendo que havia ficado pronto. Carregava entre seus braços um aveludado álbum vermelho. O senhor corcunda sentou em um dos bancos expressando um som que parecia o ranger de uma porta. A senhora sentou-se ao lado dele, abriu as pernas deixando aparecer uma espécie de meia-calça e abriu o álbum onde de longe tentei olhar e ouvir. “Essa é da redução de estômago, mor. Com esse fecho cinco”. O senhor contraía e relaxava seus lábios, emitindo somente grunidos...