Na terra do coração passei o dia pensando - coração meu, meu coração. Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa. Ficou só com-cor, ação - repetido, invertido - ação, cor - sem sentido - couro, ação e não. Quis vê-lo, escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi:
Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.
Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.
Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável. Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.
Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.
Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.
Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.
Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pôs. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.
Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.
Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco. Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar, será feliz para sempre.
Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: "Im too pure for you or anyone". Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.
Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.
Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.
Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.
Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo.
Meu coração é uma planta carnívora morta de fome. Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos - ai de mim! ai, ai de mim!
Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também. Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso.
Acesa, aceso - vasto, vivo: meu coração é teu.
sábado, 3 de outubro de 2009
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
O céu
Aqui, hoje, vejo aviões ao invés de estrelas. Mas não são pontos luminosos de aviões. São aviões.
sábado, 12 de setembro de 2009
Cidade Absurdo
Vejo uma árvore carregada de amoras em uma esquina da Consolação. Algumas pisadas no chão deixam borrões na calçada. Doces? Nos galhos, algumas ainda meio verdes, meio vinho, meio sede, me olham enquanto sentado no ônibus...
Já tentou contar as janelas que se viram para rua? Quem está por trás delas a não olhar? Quem é o moço dentro da cozinha apertada que espera a última gota de café amargo pingar do coador ao copo que já foi com milho? Pia de mármore rachado, poças.
Tiro da mochila deitada no chão fotos que acabaram de se revelar. E é tudo tão novo, tão louco. Como é que vim parar aqui?
Já na Paulista, chego até o décimo quinto andar. Comedoria? Queria mesmo era acender um cigarro enquanto observo mar de prédios e neblina tóxica. Por que não se pode fumar aqui em cima? "Por causa da lei, por causa da lei" - coloca a cabeça para fora da nuvem o senhor engravatado de barbas brancas.
Aos poucos escurece. O tal de Oury fala, mas dos fones que estão em meus ouvidos ouço apenas a voz macia da senhorita Tradutora. Ela falou que ele falou que o Freud falou isso: "Aí onde estou, devo tornar-me".
Já tentou contar as janelas que se viram para rua? Quem está por trás delas a não olhar? Quem é o moço dentro da cozinha apertada que espera a última gota de café amargo pingar do coador ao copo que já foi com milho? Pia de mármore rachado, poças.
Tiro da mochila deitada no chão fotos que acabaram de se revelar. E é tudo tão novo, tão louco. Como é que vim parar aqui?
Já na Paulista, chego até o décimo quinto andar. Comedoria? Queria mesmo era acender um cigarro enquanto observo mar de prédios e neblina tóxica. Por que não se pode fumar aqui em cima? "Por causa da lei, por causa da lei" - coloca a cabeça para fora da nuvem o senhor engravatado de barbas brancas.
Aos poucos escurece. O tal de Oury fala, mas dos fones que estão em meus ouvidos ouço apenas a voz macia da senhorita Tradutora. Ela falou que ele falou que o Freud falou isso: "Aí onde estou, devo tornar-me".
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Esse blog tem sido muito estranho. Sei lá....acho que a vida é estranha, só deixa de ser quando se torna memória, linearidade de intantes que seja, que foram, que se transformam em histórias registradas, acessíveis. Mas esse blog tem sido muito estranho. Talvez por isso, as memórias chegadas até aqui são recortes não somente de instantes, mas de longas conexões de agoras, de tempos de se confundir e com isso criar conexões novas. "to ficando cego, pra poder guiar", como já cantava Tom Zé.
MAs na verdade, nem sei porque falar desse blog. Nem sei o que é esse espaço que existe de vez em quando. Nem sei o que não existe de vez em quando. Alguem sabe? Instabilidades? Ou conexões que loucamente grudam, escorrem, colorem e descolorem a paisagem da cidade?
Trabalhar em um Caps está sendo acesso e encontros de histórias intensas, momentos vibrantes. Que lugar é esse? Resposta indefinida. A cidade cheira instabilidade....os entres lançam leves rabiscos. Se arriscam a se misturar... e nessa hora sou parte esta alquimia proposta, sem espera de fórmula e resultados.
A cidade ganha outros níveis. No ônibus, olho de cima as varias ruas que se cruzam carregadas de faróis.
Cada vez mais os lugares tornam-se contorno de corpo. membrana Plasmatica de sabão. Reluzente com o que vem de fora.
Hoje recebi meu primeiro salário.... e confesso que fiquei perdido.
MAs na verdade, nem sei porque falar desse blog. Nem sei o que é esse espaço que existe de vez em quando. Nem sei o que não existe de vez em quando. Alguem sabe? Instabilidades? Ou conexões que loucamente grudam, escorrem, colorem e descolorem a paisagem da cidade?
Trabalhar em um Caps está sendo acesso e encontros de histórias intensas, momentos vibrantes. Que lugar é esse? Resposta indefinida. A cidade cheira instabilidade....os entres lançam leves rabiscos. Se arriscam a se misturar... e nessa hora sou parte esta alquimia proposta, sem espera de fórmula e resultados.
A cidade ganha outros níveis. No ônibus, olho de cima as varias ruas que se cruzam carregadas de faróis.
Cada vez mais os lugares tornam-se contorno de corpo. membrana Plasmatica de sabão. Reluzente com o que vem de fora.
Hoje recebi meu primeiro salário.... e confesso que fiquei perdido.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
ô dia, repete?
Todo dia repete o que? O dia?
A lotação e a estrada lotada de caminhão. Asfalto quente, fumaça, uma solidão.
A rua é via, é correria. Informações de vidas que caladas deixam nos vidros engordurados de cabelos amanhecidos restos de olhares. Olhos sem brilho boiam nas faces apáticas, sombreados por olheiras cansadas, causadas de tanto olhá pra tamanha quantidade de gente a andá, a pará, a entrá, saí e levantá.
Duas putas sentam após o fim de expediente, já é manhã.
Uma cega declama seu discurso ensaiado,já é tarde, não percebe que o ônibus está vazio. Senta-se ao meu lado e me expreme com seu não-ver que faz com que os sons dos aviões, motos e outros diversos motores gritem aos meus ouvidos.
O garoto sai da cadeia após dois anos de prisão. Nunca havia visto o modelo novo do carro que passa. Irá tomar café-da-manhã na casa da mãe. Ela não sabe. Ele está feliz.Já é manhã de novo
Wisnik sai da caixa de Mp3 através de um cordão. "Anoitecer":
"É a hora em que o sino toca,
mas aqui não há sinos;
há somente buzinas,
sirenes roucas, apitos
aflitos, pungentes, trágicos,
uivando escuro segredo;
desta hora tenho medo.
É a hora em que o pássaro volta,
mas de há muito não há pássaros;
só multidões compactas
escorrendo exaustas
como espesso óleo
que impregna o lajedo;
desta hora tenho medo.
É a hora do descanso,
mas o descanso vem tarde,
o corpo não pede sono,
depois de tanto rodar;
pede paz - morte - mergulho
no poço mais ermo e quedo;
desta hora tenho medo.
Hora de delicadeza,
gasalho, sombra, silêncio.
Haverá disso no mundo?
É antes a hora dos corvos,
bicando em mim, meu passado,
meu futuro, meu degredo;
desta hora, sim, tenho medo."
A lotação e a estrada lotada de caminhão. Asfalto quente, fumaça, uma solidão.
A rua é via, é correria. Informações de vidas que caladas deixam nos vidros engordurados de cabelos amanhecidos restos de olhares. Olhos sem brilho boiam nas faces apáticas, sombreados por olheiras cansadas, causadas de tanto olhá pra tamanha quantidade de gente a andá, a pará, a entrá, saí e levantá.
Duas putas sentam após o fim de expediente, já é manhã.
Uma cega declama seu discurso ensaiado,já é tarde, não percebe que o ônibus está vazio. Senta-se ao meu lado e me expreme com seu não-ver que faz com que os sons dos aviões, motos e outros diversos motores gritem aos meus ouvidos.
O garoto sai da cadeia após dois anos de prisão. Nunca havia visto o modelo novo do carro que passa. Irá tomar café-da-manhã na casa da mãe. Ela não sabe. Ele está feliz.Já é manhã de novo
Wisnik sai da caixa de Mp3 através de um cordão. "Anoitecer":
"É a hora em que o sino toca,
mas aqui não há sinos;
há somente buzinas,
sirenes roucas, apitos
aflitos, pungentes, trágicos,
uivando escuro segredo;
desta hora tenho medo.
É a hora em que o pássaro volta,
mas de há muito não há pássaros;
só multidões compactas
escorrendo exaustas
como espesso óleo
que impregna o lajedo;
desta hora tenho medo.
É a hora do descanso,
mas o descanso vem tarde,
o corpo não pede sono,
depois de tanto rodar;
pede paz - morte - mergulho
no poço mais ermo e quedo;
desta hora tenho medo.
Hora de delicadeza,
gasalho, sombra, silêncio.
Haverá disso no mundo?
É antes a hora dos corvos,
bicando em mim, meu passado,
meu futuro, meu degredo;
desta hora, sim, tenho medo."
sábado, 8 de agosto de 2009
É inverno, e daí?

(foto da katia...linda!http://www.orkut.com.br/Main#AlbumZoom.aspx?uid=7429907756300229000&pid=1249565284983&aid=1249539790$pid=1249565284983)
E aí, soltas no ar, as várias versões de mim se confundem com a paisagem. Cidade loucamente com sua velocidade desprópria, imprória. Mas imprópria a quê?
O basal de mundo que incessantemente e insensatamente tentamos prevêr se dissolve em meio de partículas são cinzas e azul petróleo.
Desapropia o que há seculos inventou esse conceito nada natural de propiedade. Somos a invasão do que não tem dono por natureza. As forças que compõe o contorno apoiético que se faz meus eus é risonho como mar que se destoa em formas: velocidades, espuma e força.
SIm! Por todas as partes gritam os "sins". Sim pelo que há por vir: incerto, nublado, mas tocante.
Afeto que desvai...
Vivo comigo nesta aventura de se viver...
benvindo...sempre vindo ...se movimentando pelos toques e não pelas previsões....
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o MatitaPereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
É inverno, e daí?
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando, é uma conta, é um conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
É inverno, e daí?
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
É inverno, e daí?
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
É inverno...e daí?
É a promessa de vida no teu coração
pau, pedra, fim, caminho
resto, toco, pouco, sozinho
caco, vidro, vida, sol, noite, morte, laço, anzol
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração.
domingo, 26 de julho de 2009
Lua nova
Encho meu copo meio cheio de água com sobras de outros copos já bebidos.
Começo a pensar que é preciso lembrar que no fundo você é muito sozinho. E você que vai ter que ir atrás, se movimentar, mexer esse esqueleto coberto de carne, músculo, banha e eticétera ( expandindo ao invisível e aos ocos interiores).O pensamento é interrompido pela voz dela que pergunta:
-Você acha que eu ponho um tênis ou não precisa?
-Eu acho que talvez você vá pisar em poças.
Saímos juntos pelas ruas encharcadas de chuva - Sozinhos.
Começo a pensar que é preciso lembrar que no fundo você é muito sozinho. E você que vai ter que ir atrás, se movimentar, mexer esse esqueleto coberto de carne, músculo, banha e eticétera ( expandindo ao invisível e aos ocos interiores).O pensamento é interrompido pela voz dela que pergunta:
-Você acha que eu ponho um tênis ou não precisa?
-Eu acho que talvez você vá pisar em poças.
Saímos juntos pelas ruas encharcadas de chuva - Sozinhos.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
DENTE
As mudanças começam a ganhar corpo. Com isso, percebemos que a vida tem velocidade. Aventurar-se por cenários novos. Observar o tempo que passou.
Assim foi naquele dia, ao esperar o chamado que vinha da caixa de som abafada. A sala era clara, cheirava a éter. Pessoas ao meu redor folheavam revistas com suas mochilas cheias de livros e bolsas com pacotes de lenços umidecidos. Sentadas também esperavam seus nomes serem anunciados.
O relógio redondo a cima da janela era mirado por cabeças. Observavam em intervalos curtos de tempo. Sincronizadamente dessincronizadas.
Antes de obturações, finas agulhas perfuram gengivas macias afim de evitar a dor - anestesiamento.
No canto da sala uma Comigo-ninguém-pode esverdeja. Folha que intoxica quem a come. Move-se imperceptivelmente na direção da janela de viro, abaixo do relógio redondo.
"Pérola de Aquilo, sala 3. Pérola de Aquilo, sala 3". Ecoa o som até... A moça levanta-se e caminha. Em seguida ouço ruído de furadeira de dente.
De cinco em cinco o ponteiro anda. Sempre corro para não me atrasar e como resultado ganho adiantamento. Aí preciso me distrair. Mas distrair de quê?
Ao sair do dentista sento na sargeta e acendo o último cigarro do maço.
As mudanças começam a ganhar corpo. Com isso, percebemos que a vida tem velocidade. Aventurar-se por cenários novos. Observar o tempo que passou.
O ônibus 332, movido a biodiesel, aponta depois da curva da rua.
Assim foi naquele dia, ao esperar o chamado que vinha da caixa de som abafada. A sala era clara, cheirava a éter. Pessoas ao meu redor folheavam revistas com suas mochilas cheias de livros e bolsas com pacotes de lenços umidecidos. Sentadas também esperavam seus nomes serem anunciados.
O relógio redondo a cima da janela era mirado por cabeças. Observavam em intervalos curtos de tempo. Sincronizadamente dessincronizadas.
Antes de obturações, finas agulhas perfuram gengivas macias afim de evitar a dor - anestesiamento.
No canto da sala uma Comigo-ninguém-pode esverdeja. Folha que intoxica quem a come. Move-se imperceptivelmente na direção da janela de viro, abaixo do relógio redondo.
"Pérola de Aquilo, sala 3. Pérola de Aquilo, sala 3". Ecoa o som até... A moça levanta-se e caminha. Em seguida ouço ruído de furadeira de dente.
De cinco em cinco o ponteiro anda. Sempre corro para não me atrasar e como resultado ganho adiantamento. Aí preciso me distrair. Mas distrair de quê?
Ao sair do dentista sento na sargeta e acendo o último cigarro do maço.
As mudanças começam a ganhar corpo. Com isso, percebemos que a vida tem velocidade. Aventurar-se por cenários novos. Observar o tempo que passou.
O ônibus 332, movido a biodiesel, aponta depois da curva da rua.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Esvaziando o saco cheio
Décima oitava vez tentando postar alguma coisa. E o movimento é sempre de escrever e apagar, registrar e desaparecer, imprimir e jogar fora. Vai ver porque é assim que as coisas se evidenciam no momento de agora. Parece que tem muita partícula solta no ar... e o que fazer com tudo isso?
Organizar em letras, pensamentos e linearidades parece tarefa da mais enfadonha. Olhos e dedos se cansam um do outro. Aí me vejo assim: uma meta escrita, uma meta vida, uma meta meta meta meta coisa.
"Para frente e avante". Tento me convencer que sei o caminho por onde piso. Mas os registros não colam e pareço encenar a lamúria tendo raiva do ato. Cansei de correr em círculos, de ir e vir procurando no cenário conhecido o que pode fazer desvio. Como se eu não houvesse percebido aquela fruta doce no galho escondido, aquela seta ou aquela hora que anunciava o novo. Tudo está desgastado e enjôo-ativo.
E de uma vez por todas vou parar com esses vícios que insistem em desejar o desejo que nem sei se é meu, que nem sei se É eu...
Sim, eu assumo, mora em mim a dezorganização e o gosto pelo movimento causado por ela: movimento produtivo. A dezorganização como traço que não busca nada além de sua existência, que anda e cresce como as árvores do cerrado: TORTA. Rastros de contornos abstratos, porém belos, vivos e impactantes.
Curvas e laços. Estou extremamente cansado de gente careta e chata (me incluo). Cansei de chamadas orais, entrevistas, provas. Querem me conhecer? DE_SEN_CA_NA. Vai por outras vias, use outros verbos... Se estiver afim de me encontrar, de prosear, de produzir, de jogar...Beleza! Mas não me venha com decifragem, livros de procedimentos e manuais de primeiros socorros... A vida é mais simples que todas essas baboseiras, é menos cansativa do que a busca pela adaptação perfeita. E quanto ao sofrimento? Não se iludam, meus caros, ele dá passagem à vida, ao continuum, a outros ares.
Pronto. Afeto que sai é via que se cria. Agora, caminho...
Organizar em letras, pensamentos e linearidades parece tarefa da mais enfadonha. Olhos e dedos se cansam um do outro. Aí me vejo assim: uma meta escrita, uma meta vida, uma meta meta meta meta coisa.
"Para frente e avante". Tento me convencer que sei o caminho por onde piso. Mas os registros não colam e pareço encenar a lamúria tendo raiva do ato. Cansei de correr em círculos, de ir e vir procurando no cenário conhecido o que pode fazer desvio. Como se eu não houvesse percebido aquela fruta doce no galho escondido, aquela seta ou aquela hora que anunciava o novo. Tudo está desgastado e enjôo-ativo.
E de uma vez por todas vou parar com esses vícios que insistem em desejar o desejo que nem sei se é meu, que nem sei se É eu...
Sim, eu assumo, mora em mim a dezorganização e o gosto pelo movimento causado por ela: movimento produtivo. A dezorganização como traço que não busca nada além de sua existência, que anda e cresce como as árvores do cerrado: TORTA. Rastros de contornos abstratos, porém belos, vivos e impactantes.
Curvas e laços. Estou extremamente cansado de gente careta e chata (me incluo). Cansei de chamadas orais, entrevistas, provas. Querem me conhecer? DE_SEN_CA_NA. Vai por outras vias, use outros verbos... Se estiver afim de me encontrar, de prosear, de produzir, de jogar...Beleza! Mas não me venha com decifragem, livros de procedimentos e manuais de primeiros socorros... A vida é mais simples que todas essas baboseiras, é menos cansativa do que a busca pela adaptação perfeita. E quanto ao sofrimento? Não se iludam, meus caros, ele dá passagem à vida, ao continuum, a outros ares.
Pronto. Afeto que sai é via que se cria. Agora, caminho...
segunda-feira, 6 de julho de 2009
-o que vem desse sopro de agora?
-Não sei, mas sinto uma leve brisa.
-De onde vem?
-Acho que vem lá de longe, da onde desconheço e nunca fui. Às vezes me bagunça o cabelo por trás, Às vezes me embala o sono com seu assobio frio.
- Mas digo desse sopro de agora.
- Agora? Não vem de lugar nenhum. Ele apenas vai. Sinto como se saísse de meus poros.
-Não sei, mas sinto uma leve brisa.
-De onde vem?
-Acho que vem lá de longe, da onde desconheço e nunca fui. Às vezes me bagunça o cabelo por trás, Às vezes me embala o sono com seu assobio frio.
- Mas digo desse sopro de agora.
- Agora? Não vem de lugar nenhum. Ele apenas vai. Sinto como se saísse de meus poros.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Zoé
O vento abre a porta do quarto onde estava a dormir. Ao acordar percebo que é frio. Os olhos se fragilizam com o clarão cinza que vem do sol coberto de nuvens. Acordo.
Dentro da casa estou só. Sem acompanhamento de trilha sonora nem cheiro de comida que está em fogo brando. Sem fumaça de insenso nem andares, respirares, falares de outro.
Lá de fora chega barulho de furadeira e ônibus a freiar. Luminosidade de raios solares que brincam de entrar e sair por entre os cômodos.
Desço pela escada que me leva dos quartos e banheiros até a sala e cozinha. Abro todas as janelas que se fecharam em madrugada escura e mais gelada que agora. Ligo a vitrola e escuto música - balada, chorosa, dançante, ruidosa. Leio livro, anoto. Preparo o almoço - corto substâncias, cheiro tempêro, ligo chamas e toco em água.
A meu convite elas se juntam ao meu dia. Cada coisa que se move e afeta. Invade a casa de recheio. Me acompanha. Sem ninguém.
É calor que brota. Som que vibra meu ouvido. Autor que diz em pensamento meu, no eu. É cigarro que queima vagarosamente enquanto olho as folhas que se mexem. Minhas plantas dão sinal de vida. Explodem em novo - brotos, folhas de um verde claro.
Estou acompanhado de mundo. Eles correspondem da melhor maneira. Respeitam minha solidão com velocidades múltiplas. Contornam meu eu com vida cósmica.
Eu sou apenas aquele que acorda. E isso não é pouca coisa.
Dentro da casa estou só. Sem acompanhamento de trilha sonora nem cheiro de comida que está em fogo brando. Sem fumaça de insenso nem andares, respirares, falares de outro.
Lá de fora chega barulho de furadeira e ônibus a freiar. Luminosidade de raios solares que brincam de entrar e sair por entre os cômodos.
Desço pela escada que me leva dos quartos e banheiros até a sala e cozinha. Abro todas as janelas que se fecharam em madrugada escura e mais gelada que agora. Ligo a vitrola e escuto música - balada, chorosa, dançante, ruidosa. Leio livro, anoto. Preparo o almoço - corto substâncias, cheiro tempêro, ligo chamas e toco em água.
A meu convite elas se juntam ao meu dia. Cada coisa que se move e afeta. Invade a casa de recheio. Me acompanha. Sem ninguém.
É calor que brota. Som que vibra meu ouvido. Autor que diz em pensamento meu, no eu. É cigarro que queima vagarosamente enquanto olho as folhas que se mexem. Minhas plantas dão sinal de vida. Explodem em novo - brotos, folhas de um verde claro.
Estou acompanhado de mundo. Eles correspondem da melhor maneira. Respeitam minha solidão com velocidades múltiplas. Contornam meu eu com vida cósmica.
Eu sou apenas aquele que acorda. E isso não é pouca coisa.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Tempos de outonar...
E os sonhadores? Podem viver em terra firme, de pé fechado em calçado e abrir de olhos compassados com despertador de manhãzinha? Sim, meu caro!
MAs por enquanto vou acordando um pouco depois das nove, almoçando dia às 12, dias às 15. A noite sopa de chuchu, de dia músculo cozido com suco de laranja e alhos...alhos inteiros.
Assim vai sendo ... e a casa ganha goteira, e o frio invade a janela que se jogou em dia de risos, que se multiplicou em cacos cortantes de madrugada quieta.
Chá mate, filmes pertubadores e combinações de gargalhadas, de choros amigos, ligações importantes que dirá se vamos ou fico, outras ligações bem menos burocráticas que gritam, que cantam "vamos, Vamos". Pra onde não se sabe...
Produção de si... os sonhadores correm por mim! Ainda bem...
Fala, amendoeira (1957) Carlos Drummond de Andrade
«Esse ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza - essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista reparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre o céu e o chão - névoa baixa e seca, hostil aos aviões. Pousou a vista, depois, nas árvores que algum remoto prefeito deu à rua, e que ainda ninguém se lembrou de arrancar, talvez porque haja outras destruições mais urgentes. Estavam todas verdes, menos uma. Uma que, precisamente, lá está plantada em frente à porta, companheira mais chegada de um homem e sua vida, espécie de anjo vegetal proposto ao seu destino.
Essa árvore de certo modo incorporada aos bens pessoais, alguns fios eléctricos lhe atravessam a fronde, sem que a molestem, e a luz crua do projetor, a dois passos, a impediria talvez de dormir, se ela fosse mais nova. Às terças, pela manhã, o feirante nela encosta sua barraca, e ao entardecer, cada dia, garotos procuram subir-lhe o tronco. Nenhum desses incómodos lhe afeta a placidez de árvore madura e magra, que já viu muita chuva, muito cortejo de casamento, muitos enterros, e serve há longos anos à necessidade de sombra que têm os amantes de rua, e mesmo a outras precisões mais humildes de cãezinhos transeuntes.
Todas estavam ainda verdes, mas essa ostentava algumas folhas amarelas e outras já estriadas de vermelho, gradação fantasista que chegava mesmo até o marrom - cor final de decomposição, depois a qual as folhas caem. Pequenas amêndoas atestavam o seu esforço, e também elas se preparavam para ganhar coloração dourada e, por sua vez, completado o ciclo, tombar sobre o meio-fio, se não as colhe algum moleque apreciador do seu azedinho. E como o cronista lhe perguntasse - fala, amendoeira - por que fugia ao rito de suas irmãs, adotando vestes assim particulares, a árvore pareceu explicar-lhe:
- Não vês? Começo a outonear. É 21 de Março, data em que as folhinhas assinalam o equinócio do outono.Cumpro meu dever de árvore, embora minhas irmãs não respeitem as estações.
- E vais outoneando sozinha?
- Na medida do possível. Anda tudo muito desorganizado, e, como deves notar, trago comigo um resto de verão, uma antecipação de primavera e mesmo, se reparares bem neste ventinho que me fustiga pela madrugada, uma suspeita de inverno.
- Somos todos assim.
- Os homens, não. Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal, meu filho, e teu trabalho é exactamente o que os autores chamam de outonada: são frutos colhidos numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva. Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza.
- Não me entristeças.
- Não, querido, sou tua árvore-da-guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... Outoniza-te com dignidade, meu velho.»
MAs por enquanto vou acordando um pouco depois das nove, almoçando dia às 12, dias às 15. A noite sopa de chuchu, de dia músculo cozido com suco de laranja e alhos...alhos inteiros.
Assim vai sendo ... e a casa ganha goteira, e o frio invade a janela que se jogou em dia de risos, que se multiplicou em cacos cortantes de madrugada quieta.
Chá mate, filmes pertubadores e combinações de gargalhadas, de choros amigos, ligações importantes que dirá se vamos ou fico, outras ligações bem menos burocráticas que gritam, que cantam "vamos, Vamos". Pra onde não se sabe...
Produção de si... os sonhadores correm por mim! Ainda bem...
Fala, amendoeira (1957) Carlos Drummond de Andrade
«Esse ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza - essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista reparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre o céu e o chão - névoa baixa e seca, hostil aos aviões. Pousou a vista, depois, nas árvores que algum remoto prefeito deu à rua, e que ainda ninguém se lembrou de arrancar, talvez porque haja outras destruições mais urgentes. Estavam todas verdes, menos uma. Uma que, precisamente, lá está plantada em frente à porta, companheira mais chegada de um homem e sua vida, espécie de anjo vegetal proposto ao seu destino.
Essa árvore de certo modo incorporada aos bens pessoais, alguns fios eléctricos lhe atravessam a fronde, sem que a molestem, e a luz crua do projetor, a dois passos, a impediria talvez de dormir, se ela fosse mais nova. Às terças, pela manhã, o feirante nela encosta sua barraca, e ao entardecer, cada dia, garotos procuram subir-lhe o tronco. Nenhum desses incómodos lhe afeta a placidez de árvore madura e magra, que já viu muita chuva, muito cortejo de casamento, muitos enterros, e serve há longos anos à necessidade de sombra que têm os amantes de rua, e mesmo a outras precisões mais humildes de cãezinhos transeuntes.
Todas estavam ainda verdes, mas essa ostentava algumas folhas amarelas e outras já estriadas de vermelho, gradação fantasista que chegava mesmo até o marrom - cor final de decomposição, depois a qual as folhas caem. Pequenas amêndoas atestavam o seu esforço, e também elas se preparavam para ganhar coloração dourada e, por sua vez, completado o ciclo, tombar sobre o meio-fio, se não as colhe algum moleque apreciador do seu azedinho. E como o cronista lhe perguntasse - fala, amendoeira - por que fugia ao rito de suas irmãs, adotando vestes assim particulares, a árvore pareceu explicar-lhe:
- Não vês? Começo a outonear. É 21 de Março, data em que as folhinhas assinalam o equinócio do outono.Cumpro meu dever de árvore, embora minhas irmãs não respeitem as estações.
- E vais outoneando sozinha?
- Na medida do possível. Anda tudo muito desorganizado, e, como deves notar, trago comigo um resto de verão, uma antecipação de primavera e mesmo, se reparares bem neste ventinho que me fustiga pela madrugada, uma suspeita de inverno.
- Somos todos assim.
- Os homens, não. Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal, meu filho, e teu trabalho é exactamente o que os autores chamam de outonada: são frutos colhidos numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva. Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza.
- Não me entristeças.
- Não, querido, sou tua árvore-da-guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... Outoniza-te com dignidade, meu velho.»
sábado, 16 de maio de 2009
Amargo
Amargo. Assim sinto o mundo. Imundo de restos de cascas, peles, unhas e pêlos. Percebo, mesmo no invisível, todas as sobras destes instantes que passaram. O mundo também é feio. É feito de escarro, do irônico que se espalha por toda a sala, de sentar desconfortável em sofá cheio de espumas velhas que causam alergia.
O mundo também fere. É ferida. É pus de rua. É grito de sofrer e sofrimento de calar-se. É se debater. É se prolongar derretendo-se. É não se querer e pensar em pular. Se admirar imaginando o voar. Quando o sufoco parece não mais só sufocar, mas também deseja empurrar, deseja matar.
Mas o que matar? Matar a mim, o mundo, o agora? A proximidade entre morrer e se sentir morrendo se faz tão presente que não sei mais se há diferença. Fúnebre pensar.
Ele então aluga um quarto no décimo andar daquele hotel no centro da cidade turbulenta. Privado em si olha de cima todo o público recheado de sons de buzina e se entrega a eles. Se joga, e durante alguns segundos sente-se bem. Antecede a morte sensação de viver. Neste instante não mais se morre. Aproveita o ar rasgando sua face e não passa filme de sua vida. Ele apenas olha como a calçada se aproxima com velocidade esclarecedora. Era uma risca, era uma árvore, era uma cesta de lixo. Repara nas cores, nos traços desenhados na rua, nas linhas que se cruzam, nas luzes que se movimentam com o seu cair. O que menos queria neste momento era pensar no que passou. O que quer é sentir de novo a possibilidade de olhar o agora de um jeito menos sufocante. Quer o agora com vento e não mais com água podre parada de esgoto.
O mundo também é feio. O que vem mesmo depois da morte?
O mundo também fere. É ferida. É pus de rua. É grito de sofrer e sofrimento de calar-se. É se debater. É se prolongar derretendo-se. É não se querer e pensar em pular. Se admirar imaginando o voar. Quando o sufoco parece não mais só sufocar, mas também deseja empurrar, deseja matar.
Mas o que matar? Matar a mim, o mundo, o agora? A proximidade entre morrer e se sentir morrendo se faz tão presente que não sei mais se há diferença. Fúnebre pensar.
Ele então aluga um quarto no décimo andar daquele hotel no centro da cidade turbulenta. Privado em si olha de cima todo o público recheado de sons de buzina e se entrega a eles. Se joga, e durante alguns segundos sente-se bem. Antecede a morte sensação de viver. Neste instante não mais se morre. Aproveita o ar rasgando sua face e não passa filme de sua vida. Ele apenas olha como a calçada se aproxima com velocidade esclarecedora. Era uma risca, era uma árvore, era uma cesta de lixo. Repara nas cores, nos traços desenhados na rua, nas linhas que se cruzam, nas luzes que se movimentam com o seu cair. O que menos queria neste momento era pensar no que passou. O que quer é sentir de novo a possibilidade de olhar o agora de um jeito menos sufocante. Quer o agora com vento e não mais com água podre parada de esgoto.
O mundo também é feio. O que vem mesmo depois da morte?
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Fumar...
Seca, a fumaça chega aos lábios por via de dois dedos longos erguidos. O cigarro a cospe dentro de mim. E num beijo demorado a antropofagizo durante o percurso que me faz de via. E quando não mais somos juntos, a sopro. Agora nela também sou mundo. Por ares ela voa mais dissipada, mais suscetível. Ao vento, mais misturada. Se perde no ar, se ganha no ar.
terça-feira, 5 de maio de 2009
Me solta de mim!
E no rebuliço que é Vida, pisa. Pé direito e pé esquerdo, rodopiando a saia na beira do chão.
Coloco a mochila nas costas e sumo um pouco de mim no agora.
Estrada que me leva embora. Embora de lá que nunca fui, indo.
Sondo cidades que desabitam raiz. Brinco de morto-vivo. Perco, vivo.
Durmo no chão, bem. Bem no chão. Durmo no frio chão da cidade de São paulo. Durmo bem no frio chão da cidade de São paulo. Ao som de violino, cercado de outros sonos. Bem.
E assim foram semanas de presente para mim. Semanas de caramujo. Sendo casa, sendo corpo, sendo mala.
Por mim viajei amigavelmente. Para que o sair e o ficar ganhassem seus devidos lugares, apenas lugares. O farelo que fica por Onde-quer-que-seja é sobra dispensável. Apenas me levo com massa que faz miolo e casca. O que cai e se espatifa no ar é para não deixar gosto, para não me ser mais.
Pois é na rua que minha dança pesa, leve. Levo.
Pois é de perto que distancio de mim a vergonha - invenção besta e ressentidamente seca.
Pois é na rua que minha dança leve pesa. E só na rua, sem quartos particulares, sem endereços fixos, sem colchão próprio e planta minha que pude distanciar-me de mim.
"Me procurei a vida inteira e não me achei -pelo que fui salvo" (m. barros)
Por mim viajo...
E mesmo sem depositar vontade nos dias, eles continuaram andando.
No meio da correria houve então uma época que no meio do meio-dia a bala de canhão acertou o relógio da Praça Central.
Na inércia, pequenos estilhaços de ponteiros se cravaram em placentas pré-fabricadas.
A verde gosma escorreu pelos poros que antes se entupiam de poeira. Os pêlos nasceram. E somente após o instante que perceberam o crescer dos pêlos, o tempo pode ser esquecido. Pois de mim saiu confuso o mundo. E este, neste, deste dia eu fagocito o mundo e ele ora deliciosamente ora não me enfia guela abaixo...
Campinas-Guaíra-Assis-SãoPaulo...
Coloco a mochila nas costas e sumo um pouco de mim no agora.
Estrada que me leva embora. Embora de lá que nunca fui, indo.
Sondo cidades que desabitam raiz. Brinco de morto-vivo. Perco, vivo.
Durmo no chão, bem. Bem no chão. Durmo no frio chão da cidade de São paulo. Durmo bem no frio chão da cidade de São paulo. Ao som de violino, cercado de outros sonos. Bem.
E assim foram semanas de presente para mim. Semanas de caramujo. Sendo casa, sendo corpo, sendo mala.
Por mim viajei amigavelmente. Para que o sair e o ficar ganhassem seus devidos lugares, apenas lugares. O farelo que fica por Onde-quer-que-seja é sobra dispensável. Apenas me levo com massa que faz miolo e casca. O que cai e se espatifa no ar é para não deixar gosto, para não me ser mais.
Pois é na rua que minha dança pesa, leve. Levo.
Pois é de perto que distancio de mim a vergonha - invenção besta e ressentidamente seca.
Pois é na rua que minha dança leve pesa. E só na rua, sem quartos particulares, sem endereços fixos, sem colchão próprio e planta minha que pude distanciar-me de mim.
"Me procurei a vida inteira e não me achei -pelo que fui salvo" (m. barros)
Por mim viajo...
E mesmo sem depositar vontade nos dias, eles continuaram andando.
No meio da correria houve então uma época que no meio do meio-dia a bala de canhão acertou o relógio da Praça Central.
Na inércia, pequenos estilhaços de ponteiros se cravaram em placentas pré-fabricadas.
A verde gosma escorreu pelos poros que antes se entupiam de poeira. Os pêlos nasceram. E somente após o instante que perceberam o crescer dos pêlos, o tempo pode ser esquecido. Pois de mim saiu confuso o mundo. E este, neste, deste dia eu fagocito o mundo e ele ora deliciosamente ora não me enfia guela abaixo...
Campinas-Guaíra-Assis-SãoPaulo...
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Companheira singela

E aquele rosto me surpreendeu de tamanha beleza e delicadeza, mesmo tendo olhado nele por tantas vezes sem decodificar nada... Sim! Ela é uma companheira.
E não me importa mais se no mundo pareço perdido, pareço sem rumo, se a conta irá ser além do barato. E é na conversa do bar, no dia que a porta abre repentina e entra um ar quente pela nossa casa, cheio de vida....Sim, ela é companheira.
E assim vamos escrevendo uma história linda de viver...cheia de saco-cheio, cheia de "ai-meu-deus-fudeo"...E assim vamos escrevendo com instantes, momentos, lugares verde-laranja, campinas-praça, miséria-fartura....
Sim, ela é companheira!!!!
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Resistor de chuveiro
Acabei de matar mais um bicho de sete cabeças...rs
Sempre fui um cagão. Tenho medo de panela de pressão, de trocar butijão de gás, de acender o forno, e coisas do gênero, assim por diante.
Já ouvi histórias bizarras de uma tia do amigo de um vizinho que perdeu a cabeça cozinhando feijão. Outra em que a panela explodiu, perfurou o chão e foi parar no apartamento de baixo. Coisas na qual nunca soube se eram verdades, mas que me assombravam a cada tssssssssssssssssssssssssssssss...ts ts ts ts...que soava da cozinha... e sempre abrir uma tampa tornou-se com o tempo exercício de extrema coragem para mim... e a cada tampa aberta me sentia aliviado por enfrentar esse medo que parece bobo, mas pode ser "ex-tre-ma-men-te" perigoso (ouço minha vó falando)...rs
Outros medos fui perdendo com o tempo. Acender o forno agora tiro de letra. Apesar de lembrar da cena em que minha mãe pulou para trás junto a um buuuuuuuuuuuum e um clarão que vinha da cozinha...Ela sobreviveu!
Acredito que hoje foi um desses dias marcantes na história de dasafiar a si diante de repertório de referenciais recheados de histórias mirabolantes de horrores e catastrofes (ufa!). hoje, pela primeira vez na vida tive a ousadia e coragem de trocar o resistor do chuveiro...
Após comprar a estranha peça envolvida por um plástico. E depois de perguntar ao vendedor como faria tal substituição, chego em casa animado com esta aventura.
Primeiro passo: desligar a caixa de força e deixar a casa sem energia elétrica. Testo apertar o interruptor das lâmpadas e nada acontece. Pareço estar seguro. Mas e se o chuveiro for ligado a uma caixa especial que ainda não conheço? E se alguém chegar e ao perceber que as luzes não estão acendendo ligar a caixa sem me ver no andar de cima pendurado no chuveiro?
Lembro de mais uma história em que o cara levou um choque enquanto tomava banho e ficou grudado eletrocutado... e o engraçado eh que ao contarem essa história para mim o mais enfatizado pelas pessoas era o fato do sujeito estar pelado... Diziam: "imagine que constrangedor, ele estava pelaaadãããão".. enfim...
Começo a estranha função de recriar uma máquina que transforma água gelada em quente. Conforme indicação do vendedor, desemboco a primeira parte do chuveiro. Desemboco uma segunda parte do chuveiro E me encontro no cerne do problema. A célula de toda questão.
Leio o manual de instruções para não haver falhas. Transpiro. E toco o antigo resistor enferrujado e com ar de cansado. Retiro de sua locação. E com a sensação de estar indo bem, enfio no chuveiro a parte que lhe faltava para esquentar meus banhos quentes de dias mais-ou-menos frios, como o de hoje.
Ouço a voz do vendedor dizendo " Não ligue o chuveiro sem antes preenchê-lo de água, senão queima, senão estraga o resistor, ". Senão.. (viche, penso). Ligo o chuveiro desligado, impotente, servindo só de passador de água...
Logo após ligo a força. As luzes se acendem. E vou correndo ao banheiro verificar se a mágica havia se concretizado. E sim. A água saia morna!
Tiro a roupa. Pego o som. Escolho a trilha sonóra do filme da Amelie Polan...E depois de uma semana tomando banho de canequinha, me enfio embaixo do chuveiro e viajo...feliz da vida por ter conseguido não resistir mais ao resistor... Se bem que o banho com alecrim foi muito bom... e nessa semana certeza que economizamos na conta de luz!
Sempre fui um cagão. Tenho medo de panela de pressão, de trocar butijão de gás, de acender o forno, e coisas do gênero, assim por diante.
Já ouvi histórias bizarras de uma tia do amigo de um vizinho que perdeu a cabeça cozinhando feijão. Outra em que a panela explodiu, perfurou o chão e foi parar no apartamento de baixo. Coisas na qual nunca soube se eram verdades, mas que me assombravam a cada tssssssssssssssssssssssssssssss...ts ts ts ts...que soava da cozinha... e sempre abrir uma tampa tornou-se com o tempo exercício de extrema coragem para mim... e a cada tampa aberta me sentia aliviado por enfrentar esse medo que parece bobo, mas pode ser "ex-tre-ma-men-te" perigoso (ouço minha vó falando)...rs
Outros medos fui perdendo com o tempo. Acender o forno agora tiro de letra. Apesar de lembrar da cena em que minha mãe pulou para trás junto a um buuuuuuuuuuuum e um clarão que vinha da cozinha...Ela sobreviveu!
Acredito que hoje foi um desses dias marcantes na história de dasafiar a si diante de repertório de referenciais recheados de histórias mirabolantes de horrores e catastrofes (ufa!). hoje, pela primeira vez na vida tive a ousadia e coragem de trocar o resistor do chuveiro...
Após comprar a estranha peça envolvida por um plástico. E depois de perguntar ao vendedor como faria tal substituição, chego em casa animado com esta aventura.
Primeiro passo: desligar a caixa de força e deixar a casa sem energia elétrica. Testo apertar o interruptor das lâmpadas e nada acontece. Pareço estar seguro. Mas e se o chuveiro for ligado a uma caixa especial que ainda não conheço? E se alguém chegar e ao perceber que as luzes não estão acendendo ligar a caixa sem me ver no andar de cima pendurado no chuveiro?
Lembro de mais uma história em que o cara levou um choque enquanto tomava banho e ficou grudado eletrocutado... e o engraçado eh que ao contarem essa história para mim o mais enfatizado pelas pessoas era o fato do sujeito estar pelado... Diziam: "imagine que constrangedor, ele estava pelaaadãããão".. enfim...
Começo a estranha função de recriar uma máquina que transforma água gelada em quente. Conforme indicação do vendedor, desemboco a primeira parte do chuveiro. Desemboco uma segunda parte do chuveiro E me encontro no cerne do problema. A célula de toda questão.
Leio o manual de instruções para não haver falhas. Transpiro. E toco o antigo resistor enferrujado e com ar de cansado. Retiro de sua locação. E com a sensação de estar indo bem, enfio no chuveiro a parte que lhe faltava para esquentar meus banhos quentes de dias mais-ou-menos frios, como o de hoje.
Ouço a voz do vendedor dizendo " Não ligue o chuveiro sem antes preenchê-lo de água, senão queima, senão estraga o resistor, ". Senão.. (viche, penso). Ligo o chuveiro desligado, impotente, servindo só de passador de água...
Logo após ligo a força. As luzes se acendem. E vou correndo ao banheiro verificar se a mágica havia se concretizado. E sim. A água saia morna!
Tiro a roupa. Pego o som. Escolho a trilha sonóra do filme da Amelie Polan...E depois de uma semana tomando banho de canequinha, me enfio embaixo do chuveiro e viajo...feliz da vida por ter conseguido não resistir mais ao resistor... Se bem que o banho com alecrim foi muito bom... e nessa semana certeza que economizamos na conta de luz!
Banho de caneca
O que acredita você? Nisto, que os pesos de todas as coisas precisa ser novamente determinados.
O que diz sua consciencia? "Torne-se aquilo que você é".
Nietzsche
Viagens no "A Gaia ciência". Tomando banho com água esquentada com alecrim- pq o chuveiro queimou e não comprei ainda um resistor novo- e comendo bolo de banana com uma calda suculenta em sua superfície...enfim...vivendo...
NA expectativa da próxima viagen.... Assis....retorno à cidade onde vivi cinco anos de minha vida intensamente...Rever amigos, ouvir boa música e me encontrar com combinações que há tempos não visualizo-tateio-escuto-degusto...Poros abertos mas sem medo de me espantar com uma cidade que talves nunca fui......ser turista em cenário conhecido....Assim como as pessoas, as cidades também mudam com a distancia e o tempo. Poros abertos e postura de jovem!
Acho que sairei da frente desse computador e irei comprar um resistor para o chuveiro. Banho de água esquentada com alecrim é gostoso....mas as vezes precisamos mesmo é de um tempinho maior embaixo de água quente...
Fui, sem mais delongas...
O que diz sua consciencia? "Torne-se aquilo que você é".
Nietzsche
Viagens no "A Gaia ciência". Tomando banho com água esquentada com alecrim- pq o chuveiro queimou e não comprei ainda um resistor novo- e comendo bolo de banana com uma calda suculenta em sua superfície...enfim...vivendo...
NA expectativa da próxima viagen.... Assis....retorno à cidade onde vivi cinco anos de minha vida intensamente...Rever amigos, ouvir boa música e me encontrar com combinações que há tempos não visualizo-tateio-escuto-degusto...Poros abertos mas sem medo de me espantar com uma cidade que talves nunca fui......ser turista em cenário conhecido....Assim como as pessoas, as cidades também mudam com a distancia e o tempo. Poros abertos e postura de jovem!
Acho que sairei da frente desse computador e irei comprar um resistor para o chuveiro. Banho de água esquentada com alecrim é gostoso....mas as vezes precisamos mesmo é de um tempinho maior embaixo de água quente...
Fui, sem mais delongas...
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Um estranho "ameaço"

As portas das praças estão abertas. Mas ninguém se atreve a atravessá-las, e menos ainda em parar embaixo de alguma árvore e sentar. Vejo apenas, da janela de meu apartamento, sombras solitárias balançadas pelo vento da madrugada.
Aonde aprisiona-se cada mundo?
Em cada casa acompanhado de outros mundos supostamente conhecidos... MEU computador, MINHA televisão, MINHA família, MEU cachorro e assim por diante.
Após ouvir histórias de assalto pela redondeza de MINHA casa fui consumido por um andar diferente de MINHAS pernas pelas ruas. Desconfiado, parecia que os passos acelerados poderiam me levar rapidamente ao território que aproxima o Eu ao MEU. E estrangeiro de minha raça, humana, vejo naquele que caminha uma suposta ameaça, um suposto invasor de mim. E não é apenas medo de ser abordado com um revólver ou um estilete. Vejo nas ruas da cidade, no público que compõe o público, ameaças de mulheres que também aos passos rápidos enxugam lágrimas que brotam de si. Me ameaço quando corpos estendidos pelo chão se tornam meros objetos de uma decoração invisível. Me ameaço quando me perguntam as horas e quando me pedem moedas.
Nos sinais, ao atravessar as faixas brancas pintadas no asfalto negro, vejo os carros -à espera do sinal verde- simultaneamente fecharem suas janelas para que não haja invasões, devido a ameaça.
Mas que ameaça é esta que no repente do andar, que no virar do pescoço se mostra, se sente? não sei o que ela é, mas invisivelmente vem se esconder em mim.
Como se pelas ruas os mundos desconhecidos tivessem grades. Como se eu fosse bexiga que lentamente se esvazia.
Uma ameaça-vírus que se propaga no invisível. Com cada notícia de assalto, com cada muro erguido em condomínios, com o espetáculo gerado por crianças arremessadas de prédios e namorados que matam amores.
Mas não são notícias, nem assuntos que me invadem como se em mim houvesse apenas receptáculo de horrores. As ameaças perduram pois nelas consigo firmar o confortável lugar do comodismo.
Sendo assim, me ameaço. Me ameaço para tentar salvar esse cotidiano redondo, sem relevo, que carrego todo dia. Para que somente em minha companhia esteja o conhecido, o previsível... As praças de madrugada continuarão vazias. Nos ônibus os assentos com dois lugares vagos serão preenchidos primeiro. Nas filas continuará o solitário pensar de vidas ameaçadas.
Vamos lá, seres humanos! A verdade não existe, se desfaz no encontro com o novo.
E grito o que em mim me ameaço, para que eu possa me dissolver, me misturar, me expandir com um "oi", ou então com uma afirmação: "Você é meu companheiro"...e assim estabelecer diálogo. Nada tem que ser como parece ser...
Diálogo (Caio Fernando Abreu)
A: Você é meu companheiro.
B: Hein?
A: Você é meu companheiro, eu disse
B: O quê?
A: Eu disse que você é meu companheiro.
B: O que é que você quer dizer com isso?
A: Eu quero dizer que você é meu companheiro, Só isso.
B: Tem alguma coisa atrás, eu sinto.
A: Não. Não tem nada. Deixa de ser paranóico.
B: Não é disso que estou falando.
A: Você está falando do quê, então?
B: Estou falando disso que você falou agora.
A: Ah, sei. Que eu sou teu companheiro.
B: Não, não foi assim: que eu sou teu companheiro.
A: Você também sente?
B: O quê?
A: Que você é meu companheiro?
B: Não me confunda. Tem alguma coisa atrás, eu sei.
A: Atrás do companheiro?
B: È.
A: Não.
B: Você não sente?
A: Que você é meu companheiro? Sinto, sim. Claro que eu sinto. E você, não?
B: Não. Não é isso. Não é assim.
A: Você não quer que seja isso assim?
B: Não é que eu não queira: é que não é.
A: Não me confunda, por favor, não me confunda. No começo era claro.
B: Agora não?
A: Agora sim. Você quer?
B: O quê?
A: Ser meu companheiro.
B: Ser teu companheiro?
A: È.
B: Companheiro?
A: Sim.
B: Eu não sei. Por favor não me confunda. No começo era claro. Tem alguma coisa atrás, você não vê?
A: eu vejo. Eu quero.
B: O quê?
A: Que você seja meu companheiro.
B: Hein?
A: Eu quero que você seja meu companheiro, eu disse.
B: O quê?
A: Eu disse que eu quero que você seja meu companheiro.
B: Você disse?
A: Eu disse?
B: Não, não foi assim: eu disse.
A: O quê?
B: Você é meu companheiro.
A: Hein?
(ad infinitum)
Texto desencadeado após encontrar-me com o filme "O Anjo Exterminador", 1963. Dir.: Luis Buñuel
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